Cuz the luck is mine.

A sorte está comigo. Sempre esteve. Em todos os momentos da minha vidinha suja e plastificada.

Na verdade, na verdade mesmo, eu só faria merda se eu não fosse eu. Tipo qualquer um desses caras que andam por aí se achando o rei do mundo e que não têm nada que preste no meio daquele crânio oco.

Eu seria qualquer um desses. Mas não. Arrá!

Ponto pra mim.

~*~

Às vezes eu me pergunto se tem sentido a sorte estar comigo. Porque no fundo eu sou um zé mané qualquer. Só que um zé mané diferente – no caso, sortudo.

Eu sou demais!

Também me pergunto de quem herdei essa “sorte”. Ninguém – nenhum vagabundo que seja! – que conheço é como eu, sortudo, rabudo. É muita loucura pra um ser humano só.

Mas eu gosto. Ô se gosto! E a ralé me pergunta desde quando sou assim.

Ah, isso é difícil de dizer.

~*~

Desde bebê eu tive sorte nas coisas. Mas sorte MESMO! Não aquela porcaria de bebedeira que os babacas dizem ser “o destino”.

Teve uma vidente uma vez que passou por mim na rua – sabe, eu tava lá, caminhando com as mãos nos bolsos, como sempre faço, pensando no que eu iria assistir na TV de antena quebrada quando chegasse naquele barraco muquirana que eu apelidei de “casa” – e essa vidente – ela era bem como aquelas dos filmes, velha, gorda, feia, com unhas compridas e roupas estranhas… certo, talvez ela não fosse tão baranga assim – ela passou por mim, parou, se virou pra mim com cara de quem viu o diabo em pessoa e arregalou os olhos. Chegou a dar medo, sério.

Mas eu, logo eu, eu não me espanto tão facilmente. Porque já vi muita coisa pior que ela na minha frente.

Bom, ela ficou lá, parada no meio da calçada tipo louca fugida de hospício, e eu só abri um pouquinho mais minhas pálpebras. Olhei ela de cima a baixo, bem daquele jeito que os caras ricos e esnobes olham as pessoas inferiores, e continuei a caminhar, bem na minha.

Mas a velha caiu em si e se mandou? Nãããão! Ela veio atrás me mim toda agitada – parecia que estava segurando o coração nas próprias mãos – e me segurou pelos ombros.

“Ô, velha loca, vê se me larga!”, eu gritei, com raiva. Como ela ousava ME barrar?!

“Ah meu Deus! É você!”, ela exclamou, puxando um baralho de um bolso que eu não sabia que existia em sua roupa totalmente fora de moda. “Aah! Eu vi você! Nas cartas! Você tem a sorte!”

Levantei um sobrancelha. Sou do tipo caladão, sacas? Só falo merda quando tô irritado, quando os babacas me irritam, aí ninguém prende minha língua e meus punhos.

“E daí?”, retruquei, com uma careta de desdém. Aquela mulher tava passando da linha, e eu não tinha tempo para me entender com a polícia explicando que ela era a louca ali. “E daí que tenho sorte? Isso todos têm, uns mais, outros menos.”

Desviei dela e continuei caminhando.

Juro que se não tivesse mais ninguém na rua, eu matava aquela velha a facadas – e se eu tivesse uma faca ali na hora.

“Não!”, ela gritou, toda afetada, e me parou de novo. “Você tem a Sorte! Ela está contigo! É diferente da sorte que tem por aí!”

Se eu contar com todos os detalhes, vou morrer de tédio.

Pra resumir, ela puxou minha mão e pôs o baralho nela. Pediu que eu tirasse uma carta.

“Ah, dá um tempo!”, joguei o baralho no chão. “Cê acha mesmo que eu vô acreditar uma merda dessas?!”

E saí.

Ela ficou lá, só me olhando.

Ela e uma das cartas, a única que continuou voltada para baixo.

Mais tarde, eu saberia que era o curinga.

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A pedido da Padye. ;D
:*

Sem título

As tristes notas suspiravam ao meu redor enquanto alguns casais ainda rodavam pelo salão. A noite já virara, e minha permanência ali até tão tarde já começava a se tornar rotina. Nada bom.

Virei os últimos goles de meu copo e recoloquei-o sobre o balcão. O líquido amargo desceu ardente por minha garganta. Aquela cena estava se tornando familiar demais para mim. Nada bom.

Arrastei o olhar até a banda que animava a festa – ou o que restou dela. Três velhos e um microfone, nada muito excitante. Eu poderia até dizer qual seria a música que tocariam em seguida. Nada bom.

- Ok, está decidido então – cochichei para mim mesmo, sem muita segurança – amanhã as malas deverão estar prontas.

Não que eu tivesse muitos pertences, mas mesmo assim.

Olhei uma última vez para as poucas mesas ainda ocupadas, não procurando gravar as imagens como lembrança, porém para ter algum tipo desconhecido de certeza: de que eu não haveria de esquecer nada por ali. “Como se eu tivesse o que esquecer…” Larguei o copo com um fraco tlim! e me levantei. O barman veio até mim, obviamente receando que eu estivesse mais que completamente bêbado e me recusasse a pagar qualquer centavo que fosse pelas bebidas. Puxei da carteira a primeira nota que vi – teria sido de alto valor? – e a soltei de qualquer jeito sobre a mão do homem. Ele pareceu satisfeito, ou foi apenas um tique nervoso dele, não sei.

Saí do salão um pouco tonto. “É, talvez eu tenha bebido uns goles além da conta, hoje…” O céu estava tão negro quanto as pupilas de minha mãe – e elas eram as mais escuras e profundas que eu já havia visto. Foi complicado não tropeçar em pedras soltas da calçada, pois algum débil decidira como diversão quebrar as lâmpadas que deveriam iluminar o caminho. Contudo havia ainda a lua – sua luz pálida clareando fracamente minha vida.

Aquela sensação insegura de desequilíbrio estava me incomodando imensamente, sem falar das minhas enroscadas no chão, então achei mais fácil se eu caminhasse no meio da rua. Era precariamente asfaltada, mas eu ao menos não teria tantas possibilidades de me esbofetear no calçamento – a última coisa que eu queria naquele momento era chegar a pensão em que me hospedara provisoriamente e precisar explicar uns pequenos tombos a dona Rita.

Eu estava em altos pensamentos filosóficos sobre como o asfalto é mais liso que as pedras, entretanto como as pedras são mais angulosas e duras que o asfalto, quando achei que tivesse morrido.

Duas luzes muito fortes apareceram do nada bem na minha frente e lá ficaram, me encarando. Pareciam olhos, mas eu sempre acreditei que olhos nunca seriam tão redondos, nem os de anjos ou demônios. Eu parei e fiquei admirando as duas luzes – que iam se tornando maiores à medida que os segundos passavam. Elas estavam vindo até mim, será que eram amistosas? Concluí que, assim que parassem para me cumprimentar, eu iria convidá-las para uma visita ao meu quarto na pensão. Obviamente, elas não recusariam; eu era charmoso demais. Eu comecei a improvisar um sorriso arrebatador para as duas moças que cegavam minha vista, quando ouvi um barulho ensurdecedor, um rugido de alguma fera selvagem pré-histórica africana, certamente do tamanho de dois elefantes e meio.

Estava na cara que aquele monstro estava perseguindo as duas moças, e por isso elas corriam loucamente até mim. O que eu escolheria? Fugir e passar o resto da vida com duas mortes martelando na consciência? Ou salvá-las e me sentir bem comigo mesmo? Sem contar a fama, lógico. Eu: herói.

Empunhei as mãos, pronto para a luta. O rugido ficou mais alto e intenso e urgente, e entendi a frustração e a raiva da gigante aberração. Eu venceria! “Venham, garotinhas, com o papai… Ele salvará vocês…”

E então o monstro arranhou o asfalto com suas garras afiadas, machucando meus tímpanos, e as moças pararam bruscamente bem à minha frente e ali ficaram.

E as luzes se apagaram.

A buzina soou insistente e furiosamente mais uma vez. Pisquei, confuso. Tudo escurecera novamente, e só pude ver o carro marinho parado a poucos centímetros de mim graças à luminosidade lunar.

- Você é louco, ou perdeu alguma coisa?!

Levantei o olhar. Uma mulher esguia e enlaçada com um casaco longo tão negro quanto a noite havia descido do carro e me encarava com uma expressão irada e ao mesmo tempo assustada em seu delicado rosto de marfim.

Sacudi minhas pálpebras. Eu estaria tendo uma visão?

- Você é surdo também? – a doce aparição bradou para mim. – Eu estou falando com você!

Gaguejei algumas sílabas, e ela revirou os olhos. Deu meia volta, entrou no carro e fechou a porta, muito agilmente, já buzinando novamente. Tapei os ouvidos. Aquilo me causava dores de cabeça. Como eu não me mexesse, a moça saiu do carro outra vez e veio até mim.

- Ok, eu estou com pressa se o senhor não sabe, então quer fazer o favor de desimpedir a estrada?

Olhei ao redor e finalmente percebi onde estava. Cocei o queixo.

- Desculpe, moça – minha língua enrolou um pouco no Ç. – Não era a minha intenção. É só que… eu não aguento mais isso.

Ensaiei alguns passos, procurando deixar o caminho livre – e não me saí tão mal. Ela, contudo, não parecia pensar como eu: suspirou, frustrada. E de repente os braços dela envolviam minha cintura, e ela me guiou até a porta do carona. Só percebi que ela me levara para dentro do carro quando ela girava a chave na ignição.

- Ei – eu franzi a testa. – O que está fazendo?

Ela me ignorou e pisou suavemente no acelerador.

- Moça, se você pretende me raptar, devo alertá-la de que será tempo perdido. Não tenho parentes, e dinheiro para mim é tão raro quanto oxigênio no Everest.

Um sorriso maroto brincou em seus lábios, mas ela fingiu não me ouvir e fez uma curva fechada voltando ao perímetro do centro da cidade.

- Endereço – ela ordenou.

- Quê?!

- Qual a rua da pensão em que está hospedado?

Puxa, se eu estava meio grogue, essa me acordou.

- Como você pode saber que estou numa pensão? – meus olhos estavam do tamanho do fundo de copos de vidro.

Os ombros dela foram sacudidos por um riso reprimido. Ah, isso estava sendo muito divertido para ela. Amedrontar homens embriagados e desconhecidos, ao invés do contrário, devia ser seu passatempo predileto.

Ela fez uma última curva, menos acentuada agora, e notei que estávamos exatamente em frente à casa alaranjada de dois pisos onde eu passara aquelas cinco estafantes semanas. “Uau, quem é essa mulher?”

Ela freou e desligou o motor. Voltei meus olhos arregalados para ela. Ela sorriu, achando graça.

- Ok – ela juntou as mãos -, o senhor tem de descer antes que a dona Rita comece a se preocupar muito – ela deu uma ênfase aterradora ao verbo “preocupar”.

Tremi, duplamente amedrontado. Dona Rita podia se tornar vilanescamente inoportuna quando seus pensionistas sumiam. E aquela mulher surgida do nada estava transformando-se numa vilã inoportunamente sábia.

Olhei para a noite escura fora do carro, pisquei e me virei de volta para a nova desconhecida. Os olhos dela estavam brilhantes, risonhos, refletindo fracamente as estrelas e a lua. Quem era ela? De que nuvem aquele ser extasiante caíra? Por que eu perdera tão bruscamente aquele desejo de partir dali? Eu não queria mais mala alguma – queria ficar ali, só fitando aqueles belos olhos.

Ela pressentiu meu movimento seguinte, tenho certeza. O que me intriga é por que ela permaneceu parada, endeusada, os olhos perolados, os lábios retorcidos num sorriso satisfeito, enquanto eu a beijava. Durante os poucos minutos seguintes, jurei que havia morrido – de novo. Pois só assim poderia tocar um anjo tão belo e sábio.

Ela não resistiu; apenas dominou meus braços quando achou que já era o suficiente por uma noite – ou por uma vida.

Não dormi naquela noite. Passei rememorando o gosto daquela boca macia, a diversão naqueles olhos faiscantes, e cogitando quando nos veríamos novamente. Ela dirigira com tanta segurança naquelas ruas, como se fossem velhas conhecidas – e talvez fossem, por que não? Isso responderia a muitas coisas.

Às vezes, eu penso que tudo não passou de um sonho. Mas então, eu me vejo vivendo nesta mesma cidade, nesta mesma pensão, esperando. Aguardando o dia em que ela quase me atropelará mais uma vez na rua, gritará comigo, me colocará dentro do seu carro e deixará que eu a beije. E finalmente esse será o dia a partir do qual não sairei jamais de perto dela.

ByMoony.

Escritores são deuses

Todo escritor é uma espécie de deus. Alguns são extremamente beatíficos, ao passo que outros não valorizam muito o conceito de “vida” que dão a suas criações. É possível encontrar autores que procuram incessantemente caracterizar o enredo com o cotidiano cativante e profundo do mundo ao seu redor, contudo não é incomum ver que há uma grande quantidade que prefere o incrível e fantástico ao simples e real.
Entretanto, ouso dizer que todos eles, sem exceção alguma, são deuses.
“Certamente ela se refere ao anormal talento de tais best-sellers, já que na atualidade uma boa trama é crucial.” Não, não falo a respeito do suposto talento de alguns desses deuses. (Aliás, o talento é algo que se alcança. Os raros casos de humanos super-talentosos, que nascem sabendo como mudar a formulação de um produto químico, ou então saem tocando complexas melodias aos meros três anos, eles são corretamente denominados de raros.)
“Logicamente, então, ela está comentando sobre os grandes mestres: os clássicos.” Novamente, não. Esclareço: eles também são deuses. Porém, não são apenas esses espécimes aos quais aludo. Os Mestres são exemplos dos Talentosos acima – os inteligentemente talentosos. Mas ainda não podem explicar com perfeição o que tento dizer.
Um escritor é um deus.
Quando costura todos os elementos da sua narrativa, suas personagens, seus cenários, suas falas, todo o enredo, o escritor tem carta branca para atuar como bem desejar. Se escolhe simplesmente observar, ele observa. Se decide mergulhar de cabeça e sentir as emoções do protagonista, ele mergulha. Se prefere estar por perto e manter-se seguro do tribular da maré, ele o faz.
E, tendo todo o poder possível, ele age como bem entender, é levado por suas emoções, e o destino de suas criaturas não passa de um fiapo de imaginação prestes a cair no papel.
Ará. E fez-se o sentido!
Para explanar mais claramente o que pretendo aqui, farei uso de um exemplo.
Escolherei uma personagem para esta demonstração. Bom, preciso criá-la. Uhm, um homem parece-me apropriado. Estatura alta, cabelos castanhos, olhos negros, boa compleição física. Seu nome será… Cássio. Soa bem.
Perfeito. Tenho minha personagem. Falta-me saber o que acontecerá a ela. Sua idade deve girar em torno dos 25 anos. Tem um emprego numa empresa transportadora. Almeja o quê? Um salário melhor, de início, e uma esposa, mais tarde. Isso.
Agora, vou mexer na vida tranqüila de Cássio. Porque ninguém vive eternamente em paz – e minha história jamais seria lida.

Em uma bela manhã de outono, nosso herói Cássio deixou seu pequeno apartamento no centro da cidade assobiando, feliz. Em uma semana, comemoraria seu 26º aniversário e ele tinha uma ótima expectativa quanto a isso. Fazia algum tempo que planejava uma festinha com seus amigos de trabalho, e aquela parecia ser a deixa tão esperada.
Chegando à parada do ônibus, pôs-se a admirar as fofas nuvens no céu. Não era um rapaz romântico, mas aprendera duramente a aproveitar a vida a partir das minúsculas coisas; como as nuvens. O som de uma buzina o trouxe novamente à realidade, e ele subiu no coletivo. Cumprimentou o motorista com um aceno de cabeça, pagou sua passagem e sentou-se, como sempre, à janela.
Não se passou muito tempo desde a entrada de Cássio no ônibus quando houve uma brusca freada. “O que aconteceu?”, questionou-se nosso herói. Esticou o pescoço e tentou ver o motorista. Mas o que enxergou fez sua espinha congelar.
- Passe a grana! – segurando uma arma, um rapaz exigia do cobrador.
Assustado, o homem juntou todas as cédulas e as entregou ao assaltante. Cássio tateou por sua carteira, pensando em escondê-la em alguma fresta do banco. O rapaz com a pistola virou-se para encarar a pessoa que tentava enganá-lo.
- Ei, tu! Que ‘tá arrumando aí?
Cássio sentiu seu rosto pegar fogo.
- N-nada – gaguejou, a carteira tremendo nas mãos.
- Tô sabendo – resmungou o rapaz. – Aproveita que eu tô de bom humor hoje e me passa a carteira, tio.
“Tio? Essa foi demais!”, indignou-se Cássio. Franzindo a testa, ele jogou a carteira de qualquer jeito para o rapaz, mas fez questão de retirar seus documentos antes disso.
- Valeu – retrucou o assaltante, com um sorrisinho cínico no rosto, enquanto guardava seu roubo no bolso. – Até mais… – e saiu correndo pela porta do ônibus.
- Tio?! – Cássio não se agüentou. – Moleque, eu tenho idade para ser seu pai! A audácia!…
O motorista o olhou pelo espelho retrovisor e deu um sorrisinho triste. Coisas assim aconteciam sempre. Pisando no acelerador, pôs o ônibus em movimento.

Até agora, temos uma pequena agitação na vida anteriormente tranqüila da nossa personagem. Vejamos onde pararemos se chacoalharmos mais alguns pontos…

Cássio cruzou os braços, irritado. O fato de ter sido tratado como “tio” o tirara mais do sério do que ter perdido seu dinheiro. Com um suspiro resignado, recostou-se no banco.
Cinco minutos depois, nosso herói adentrou a saleta dos funcionários de sua empresa. Desejou um bom dia a todos seus amigos e dirigiu-se à mesa em cima da qual havia uma pilha de afazeres. Cássio procurou a folha em cujo cabeçalho sabia que seu nome estava escrito.
Foi interrompido por um de seus colegas – na verdade, o sub-chefe, chamado assim por suas costas.
- E aí, Cássio? – cumprimentou-o o homem franzino. – Belo dia hoje, não? Suas coisas foram transferidas para aquele armário lá – apontou para o final de um corredor. – E, aliás, – baixou mais a voz – o chefe quer falar com você. Vai nessa – saiu, dando um leve tapa nas costas do nosso herói.
Cássio observou o homem se afastar de jeito um pouco bizarro e levantou uma sobrancelha. Largou as folhas que ainda segurava e foi ter com seu chefe. Bateu duas vezes na porta. Escutou alguém exclamar um “Entre!” e obedeceu.
- Cássio! Entre aí, camarada! Só preciso de um minuto aqui… – o chefe estava invisível atrás de mais pilhas e montes de pastas, folhas e papéis.
“Por sorte o telefone não está tocando”, zombou Cássio, mentalmente.
Enquanto esperava, passou os olhos pela bela plaquinha dourada sobre a mesa e que ostentava o nome e o cargo do homem invisível:
M. Maciel
Presidente

Talvez, algum dia, ainda tivesse uma daquelas… Ou ao menos um salário daqueles…
- Então, meu Cássio? – Maciel pulou da cadeira. – Tem algo a dizer sobre meus funcionários ou meus métodos de gerência?
- Ahn – Cássio ficou confuso. O chefe não o chamara ali para simples papo, correto? – Na verdade, nenhuma reclamação, senhor. Apenas elogios.
- Isso é bom, muito bom – murmurou Maciel, esfregando as mãos e encarando sua mesa lotada.
Fez-se silêncio por alguns segundos. Cássio esperou, calado e intrigado.
- Mas o negócio é o seguinte – exclamou o chefe. – Eu andei investindo na Bolsa, como você deve saber, e consegui alguns ótimos… Você sabe. Pude reformar a ala norte da empresa e ainda consertar a antiga frota de caminhões… Coisas muito boas. Só que tivemos um sério problema com essa nova crise… e digamos que eu estou devendo tudo o que ganhei.
Cássio engoliu em seco. Pressentimento?
- Então eu preciso fazer uma coisa que eu não faria por livre e espontânea vontade. Não quero fazer isto, mas preciso. Preciso cortar despesas… E uma delas é… demitir alguns funcionários. Espero que você entenda minha posição e que algum dia possa me perdoar. Mas preciso que você procure outro emprego.
Cássio piscou várias vezes para clarear a mente. “Estou escutando direito? Estou sendo demitido? Por contenção de despesas? Primeiro, um assalto. Agora, demissão.”
Notou que Maciel chamava seu nome.
- Ahn, eu… – sua vista estava embaçada. Certamente por culpa de algumas malditas lágrimas que ousavam sair. – Eu… vou pegar minhas coisas… lá – e deu as costas ao ex-chefe.

Parece que realmente algo ruim aconteceu com minha personagem. Homens não choram com muita facilidade. Devo tentar consolá-lo?
Ainda não sei.

Cássio parou no corredor. Não queria que seus ex-colegas o vissem naquele estado. Assalto e demissão estavam ótimos para um dia; não suportaria o deboche. Recompôs-se e foi caminhando normalmente até o tal armário que o sub-chefe havia indicado. Recolheu alguns relatórios, um cheque de seu chefe destinado ao ex-funcionário (o valor era bom, mas não duraria por muito tempo), seu casaco couro – que usava no lugar do da empresa, pois era muito mais confortável – e algumas outras bugigangas nas quais não prestou atenção.
Viu uma folha de sulfite em branco e teve a idéia de deixar um pequeno bilhete de despedida para seus amigos. Silenciosamente, rabiscou algumas palavras tristes e enfiou o papel no armário de um dos colegas. Ele avisaria aos outros.
Saiu de mansinho, sem chamar por ninguém. Não queria platéia alguma.
Quando chegou à rua, olhou para o céu. As nuvens, tão fofas e brancas mais cedo, agora tinham um aguado tom de cinza. Infeliz, Cássio recusou-se a pegar outro ônibus e escolheu o luxo de uma corrida de táxi.

Sinto que ainda falta algo nesta história azarada. Um toque feminino.
Cássio, prepare-se, sua garota está a caminho.

Chegando a seu prédio, nosso herói abriu a porta e subiu as escadas arrastando os pés. Parecia-lhe que o dia não poderia piorar.
- Ei, Cássio!
O entusiasmo na doce voz de mulher o fez virar tão bruscamente que deixou cair alguns dos relatórios que, num tempo passado, ficara orgulhoso em enviar.
- Oh, Bianca! Que… surpresa! – disse ele, atrapalhando-se com suas coisas. Bianca era sua vizinha. E ele tinha uma queda por ela, pelos seus olhos azuis, seus cachos escuros e suas pernas longas.
A morena riu com a confusão dele e se adiantou para ajudá-lo. Juntou os papéis e entregou-os.
- Espere – ela fitou os olhos negros a sua frente, os tristes olhos negros, e franziu a testa. – O que houve, hein? – sua voz era mais doce ainda, o que desconcertou Cássio.
- Ahn, bom, nada que… eu… – ele enrolou a língua. Com um suspiro, tentou novamente. – Eu fui demitido. Por contenção de despesas.
O rosto de Bianca de contorceu de tristeza.
- Não, oh! Eu sinto muito, Cássio.
- Eu sei…
Permaneceram num silêncio consolador por alguns minutos.
- Cássio, ahn – tentou Bianca. – Se você precisar de alguma coisa… qualquer coisa… eu moro aqui do lado, não esquece, ok?
Cássio ergueu a cabeça e fitou os lindos olhos da moça. Ela estava sendo completamente sincera. Era por isso que ele estava, bem… apaixonado por ela. Mas nunca confessaria isso.
- Claro – ele respondeu, com um sussurro.
E quando viu, ela estava tirando suas coisas de suas mãos e forçando a entrada no apartamento dele.
- Espere… o quê? Bianca! O quê?…
- Estou ajudando você, ok? – ela o interrompeu, arrancando as chaves e abrindo a porta. – Vamos, você não parece bem para ficar sozinho. E quero aproveitar para lhe dizer uma coisa. Algo muito importante para mim.
“Ahn, como assim? Algo… importante? Será que…?” Cássio sentiu seu peito inchar enquanto imaginava o que a moça teria para lhe contar. Seguiu-a e guardou suas coisas numa estante. A vizinha parecia um pouco nervosa.
- Bom, Cássio, é o seguinte – ela torcia as mãos uma na outra. – Já faz um tempo que eu pretendia dizer isso, mas eu tinha medo que você não gostasse. Por sorte, Ricardo insistiu para eu falar, já que isso é tão importante para mim… Você sabe que eu gosto muito de você, não é?
“Meu Deus, será que ela vai dizer o que eu quero que ela diga?”
- Claro – incentivou Cássio, ansioso.
A moça suspirou.
- Então… eu estou noiva.
Um vidro se quebrou na cabeça dele. Ficou mudo.
- Ricardo e eu vamos nos casar no próximo mês e… – ela segurou um grande sorriso – eu queria que você fosse nosso padrinho. Isso é muito importante para mim, sabe? Oh, você aceita? – os olhos dela brilharam, tentadores.
Cássio mexeu a boca alguns centímetros, ainda mudo.
- Claro – sussurrou, a voz rouca.
Bianca pulou.
- Ah, obrigada! – jogou-se contra o estupefato vizinho e roubou-lhe um abraço apertado. – Eu sempre soube que você aceitaria! Obrigada! – ela se afastou. – Então, mais dia menos dia… eu trago mais notícias, padrinho.
Com uma piscadela, ela saiu, feliz.

Por essa você não esperava, não é, Cássio?

Ele congelou bem no meio da sala. Não sabia o que pensar. “Isso… não pode estar acontecendo. Ela não…” Seu dia fora o pior de toda sua vida. Um assalto, demissão e a perda da amada. Nada parecia estar a seu alcance agora.
Deixou-se sair em uma cadeira.
E ali ficou. Sem esperanças.
Uma lágrima travessa brincou em seu rosto, mas ele a ignorou. Estava completamente sozinho. Como tudo pudera mudar em tão pouco tempo?
E então, ele soube.
Furioso, cerrou os punhos.
- Você! – gritou a todo pulmão. – Vamos! Responda! Eu sei que está aí! Desgraçado!
Resfolegando, ele esperou.
- Não se faça! – ele rosnou. – Eu sei que pode me ouvir!

Com quem ele está falando?

- Imbecil, estou falando com você!

Isso… não parece… Não, eu estou sonhando.

- Sonhando que nada, babaca! Você acabou com a minha vida! Primeiro com aquela droga de coisa de “tio” lá no ônibus! Você sabia que eu perderia a cabeça com aquele moleque! Depois, a demissão! Como se os meus direitos valessem muito hoje em dia! Aquele cheque é capaz de ser sem fundo, espertalhão! E agora!… – sua garganta ficou presa com a fúria. – Bianca é noiva! Você sempre soube que eu a amava! Satisfeito agora? Minha vida está acabada!

Ora, Cássio, não é tão ruim assim… Deus, estou falando com uma personagem. Um ser inanimado… E ele está respondendo. Acho que tenho sérios problemas.

- Ser inanimado – ele desdenhou. – E, sim!, você tem muitos problemas! Comigo! Você é responsável por mim! Já que me criou… – ele interrompeu-se, lembrando de algo. – Aconteceu uma vez de a criatura engolir o criador – um sorriso maligno formou-se em seus lábios.

Você está me ameaçando, pedaço de papel?

- Estou. E pedaço de papel é a vó, imbecil!

Certo, isto é mais que suficiente. Ser insultada por uma mera personagem, não vou tolerar isso. Eu sou a autora aqui – e posso fazer as mudanças que eu quiser. E já sei como cuidar de você, Cássio…

- Rá! Me ameace, fique à vontade! Mas eu vou fazer da sua vida um inferno, igual à minha! Você vai se arrepender! – ele começou a criar um plano malévolo… – E você, narrador, cale a boca!
Mas… eu estou apenas narrando o que ela escreve. Não tenho culpa de nada.
- Sei, sei. Mas está mancomunado com ela! – e apontou para… – Chega! Estou cansado de ser uma simples personagem que pode ser jogada para qualquer lado como se não tivesse sentimentos! Algum dia eu teria Bianca para mim se você não tivesse metido sua caneta aqui, sua… sua!…

Cale-se você, Cássio. Não tem poder algum aqui.

- Como não? Você não vê? Não pode mais me controlar! Não agora! Eu estou livre! Rá! Livre dessas amarras invisíveis! – rindo, balançou os braços… – E sem narradores para me fazerem sentir que não existo de verdade! Então, se mande, otário!
Este é meu trabalho! Eu sou o narrador! Não pode me mandar embora. Não é justo!
- Ninguém nunca lhe disse que a vida é injusta? Vá, não quero mais ouvir sua voz irritante seguindo tudo o que faço ou penso. E agora que tenho finalmente um real livre arbítrio, vou mostrar para aquela autora de meia tigela com quantas frases se faz uma boa história! Ei, você! Venha cá, se tem coragem! O que foi? Está com medinho de uma simples personagem? Hein? Estou esperando, imbecil!
- Cássio? O que você…?
- Bianca? Ah, eu, bem, nada exatamente. Você… não estava escutando, certo?
- Eu não pretendia, mas acho que até as pessoas lá na frente ouviram seus gritos.
- Oh, Deus. Eu… sinto muito, eu não…
- Tudo bem, Cássio, eu entendo. É por isso que estou aqui. Trouxe uns amigos para você relaxar um pouco e esquecer seus problemas.
- Sério? Digo, não precisava…
- Ah, precisava sim. Entrem, rapazes, ele está aqui. Está mais calmo agora.
- Oh, ei, por que eles estão com essas roupas brancas? São médicos? Não!, me soltem! O que estão fazendo? Isso é uma camisa de força? Não mesmo, eu não sou louco! Me larguem agora! Mas que droga! Está vendo, cabeça oca? Está vendo como sua droga de história acabou com minha vida? Autora de meia tigela, vai se ver comigo!
- Ele realmente não está bem…
- Bem? Eu estou ótimo! A culpa é toda dela! Dela! Me soltem e levem-na! Ela!
- Cuidado com as escadas…
E foi assim que Bianca e Ricardo precisaram encontrar outro padrinho para seu casamento. Por sorte, havia muito tempo pela frente.