Mary Jane

O nome dela era Mary Jane. Um clichê, na minha sandia opinião. Contudo, ele lhe caía bem – perfeitamente bem. Claro, ela era perfeita. Lembrava-me um poema que alguém me traduziu há muito tempo e que falava de anjos tentadores ao invés de protetores. O que era muito apropriado.Era minha última noite em Blue Hill. O prazo estava se esgotando, e meu disfarce também. Ao contrário do que você possa estar imaginando, ser perseguido tanto pela polícia quanto pela máfia – sem contar os civis e alguns militares que não foram com a minha cara – não é tão simples quanto se encostar à parede do salão e fumar o último cigarro da sua carteira enquanto observa o rebolado do baile. Pois é, as duas coisas estavam acontecendo comigo.

Aquela cidadezinha me era cansativa. A minha praia nunca foi o campo, exceto o de batalha, se é que me entendem. A única coisa que levantava meu humor do chão apenas alguns centímetros eram os bailes semanais. E nem preciso dizer que eu comparecia a todos. Sou anti-social e meu passatempo favorito é observar a sociedade em seu hábitat natural. E quanto mais natural… melhor.

Olhei meu relógio. Faltavam alguns minutos para a meia-noite. Voltei a fitar os passos e balanceios da Sociedade cujo nome já falei. Apaguei o cigarro e anotei mentalmente para comprar mais assim que Louis me desse notícias – ou seja, quando saísse do túmulo. Perguntei-me por que diabos eu fumava e caminhei até a moça. Ela ria, divertida, enquanto sentava, saída de uma longa dança. Seu par se afastou, e aproximei-me silenciosamente.
“Senhorita?”
Ela se voltou para mim, ainda sorrindo. “Sim?”
Estendi a mão, com uma pequena reverência – que aprendi em algum maldito filme de época. “Concede-me esta dança?”
Ela soltou um risinho e olhou para a amiga. Olhou-me novamente e pôs sua mão sobre a minha. Puxei-a até o meio do salão lotado de casais. Ela apoiou a mão em meu ombro, e eu, em sua cintura.
“Você é novo por aqui, não?”, ela riu-se, enquanto eu a rodopiava.
“Não tão novo que não possa reconhecer uma grande dançarina após alguns bailes.”
Ela riu. Seu riso a tornava ainda mais perfeita.
“Você tem cara de galanteador. Diga, por que nunca me tirou para dançar se, pelo que diz, me observa há várias
semanas?”
Sorri levemente. Além de perfeita, tinha uma bela mente lógica.
“Que pergunta impertinente e sem sentido. Não é óbvio? A senhorita nunca estava desacompanhada.”
Ela jogou os cabelos para trás, com uma gargalhada. “O senhor é rápido, não?”
“Não tanto quanto a senhorita.”
A música ficou mais lenta, e ela me lançou um olhar de soslaio. Levantei uma sobrancelha, e ela enlaçou meu pescoço,
e eu, sua cintura. Era impressão minha, ou a sorte estava, como já comentei, comigo?
She grew up in a Indiana town,
Had a good lookin’ mama who never was around.
But she grew up tall and she grew up right
With the Indiana boys on an Indiana night.
“A senhorita parece realmente gostar de dançar. Além de seus passos serem os mais leves e perfeitos, assim como a dona deles, o vestido aparenta ser muito apropriado.”
Arranquei-lhe um sorriso corado.

Well she moved down here at the age of eighteen,
She blew the boys away; was more than they’d seen.
I was introduced and we both started groovin
She said, “I dig you, baby, but I got to keep movin – on.
Keep movin on”.
“O senhor não deveria fazer tantos elogios, que podem ser mal entendidos, para alguém cujo nome nem sabe.”
“E quem disse que a senhorita Mary Jane os compreenderia erroneamente?”
Ela se espantou de verdade, mas logo respondeu:
“Isso não é justo. O senhor precisa me dizer seu nome também então.”
“Qual a valia de um nome”, filosofei, enrolando no dedo uma mecha de seu cabelo, “perante o destino?”
Ela soltou um pequeno bufo, e sorri, satisfeito. Finalmente eu conseguira frustrá-la.
Olhei fundo em seus olhos. “Meu nome não tem importância, mas, se a senhorita quiser, pode me chamar de Jimmy.”
Eu já sentia seu hálito de hortelã, ela entrara na minha, tão perfeita e clichê, quando um tiro acertou em cheio o meio
de suas costas, e um filete escarlate pôs-se a manchar seu belo vestido.

Last dance with Mary Jane, one more time to kill the pain.
I feel summer creepin in and I’m tired of this town again.
Em minha primeira e última dança com Mary Jane, ela morreu em meus braços.
E sem dúvida por culpa minha.

Well I don’t know but I’ve been told, you never slow down, you never grow old.
I’m tired of screwin up, tired of goin down,
Tired of myself, tired of this town,
Oh my, my, oh hell yes – Honey put on that party dress.
Buy me a drink, sing me a song,
Take me as I come, cause I can’t stay long.
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Geordana

Lancei um olhar pelo aposento, sem mover minha cabeça. A sala de minha “amada” professora era ampla; seu teto abobadado e suas colunas em estilo grego lembravam-me ligeiramente os antigos palácios da nobreza. Sem exagero, centenas de cadeiras aparentemente desconfortáveis ocupavam o vazio do chão de mármore polido escuro. Enquanto isso, a luz vaga dos poucos candelabros não conseguia atingir o fim do teto, o que me dava a impressão de que havia um véu negro jogado por cima da sala. Atravessando o mar de invisíveis espectadores sentados, uma longa pena arranhava o papel sobre a escrivaninha. A mão de Nagg em meu ombro esquerdo não era tão incômoda se comparada àquele insistente ruído irritante. O guardião me fez parar a um metro de distância da escrivaninha e aguardou em silêncio. Conforme fora orientada, permaneci calada e observei as ágeis mãos de minha professora trabalharem com as letras. Minhas pálpebras já estavam pesadas quando finalmente Joyce despregou o olhar do papel e transferiu-o a Nagg. Este fez um leve movimento com a cabeça, indicando-me. As duas grandes verdes contas de vidro voltaram-se para mim, como se eu não passasse de um tecido indiano à venda. Pude contar exatos dois segundos, e minha professora prosseguiu o arranhar incansável da pena. Perguntei-me como Nagg conseguia tolerar Joyce; ela, tão temida pelos alunos, tão falsamente respeitada pelo corpo docente.

Sensação de déjà vu – eu já vira aquela cena antes. Para evitar o tédio que se seguiria, fiz com que algo às costas da professora chamasse minha atenção; mais precisamente a estreita e alta janela de vidro canelado que permitia a vista do jardim proibido aos alunos e, mais próximo ao horizonte, as montanhas da cordilheira que cercava a escola. A pena foi largada sobre a escrivaninha e os papéis, arrumados milimetricamente. Nagg forçou minha cabeça na direção de Joyce (como ele notou que eu estava distraída?). Ela me observava fixamente, com suas mãos suavemente cruzadas sobre seus escritos. Não sou da espécie de pessoas que se intimidam facilmente, se é que me entende. Sustentei o olhar – por exatos quinze segundos – até minha “amada” professora reagir à minha ousadia. Ela suspirou, e seus braços a ajudaram a levantar-se da cadeira, o que fez com que ficasse razoavelmente mais alta e imponente que eu. Sinceramente, nem pisquei.

“Geordana, Geordana”, os longos cachos negros de sua cabeça agitaram-se, como que me avisando de uma catástrofe. (Joyce, a revolucionária, dizia que dirigir-se aos alunos pelos seus sobrenomes fazia-os pensar que eram importantes.) “Você faz com que eu estimule minha criatividade, contudo esse é um tempo valioso que acabo desperdiçando. Sejamos curtas e grossas: o que faço para você parar de ser tão irritantemente desobediente?”

Como eu não respondesse, ela fechou e abriu as mãos e respirou fundo duas vezes. Nagg, o guardião, puxou de seu bolso externo esquerdo um pedaço de papel amassado nas bordas e estendeu-o para minha professora. Ela o recebeu, com certa ansiedade, posso dizer, e leu-o como se fosse a confirmação do aumento de seu honorário. Eu sabia o que estava escrito naquele bilhete, palavra por palavra, e sabia exatamente o que teria de fazer quanto aquilo: absolutamente nada. Joyce interrompeu bruscamente sua leitura e olhou-me de soslaio. Cerrou os dentes com força e dobrou o papel quatro vezes.

“Eu devia ter imaginado”, ela grunhiu e cruzou os braços. “Algo me dizia que a história era grande desta vez, porém eu não fazia idéia de que chegaria a essas proporções. Geordana, você não é idiota, pelo menos não completamente. Você já demonstrou que tem bom-senso – e quando digo isso não a estou elogiando, muito pelo contrário. Você não teria maquinado tudo isso, não sozinha, eu sei disso, e você também sabe, estou certa?”, Joyce descruzou os braços, apoiou as mãos sobre a escrivaninha e inclinou-se para frente ameaçadoramente.

Pude sentir seu bafo de hortelã mascada chegar a meu rosto. Como já falei, eu não faria absolutamente nada referente àquilo; primeiro, pois não havia o que ser feito; e, segundo, se houvesse, não seria minha obrigação. Eu já metera meus dedos esguios o suficiente naquela confusão tola de crianças.

“Nagg”, as contas verdes de vidro voltaram-se para ele. “Você já sabe quem procurar. Vá atrás dele neste instante, antes que consiga inventar qualquer outra irresponsabilidade que possa destruir não só a minha reputação quanto a reputação desta escola”, e sussurrou para si mesma, certamente pensando que meus ouvidos não fossem merecedores de sua fama, “que mais cedo ou mais tarde estará a meu total alcance e domínio.”

Eu bem que tentei manter a calma, contudo aquele murmúrio foi estarrecedor demais, até para mim, que já desconfiava de algo. E quando Joyce ordenou que o guardião fosse procurar alguém, eu quis ter certeza de quem seria o desafortunado.

“Ir atrás de quem?”, perguntei, pela primeira vez durante toda aquela cena, pousando minhas mãos sobre a escrivaninha e ignorando a ironia em minhas palavras.

Minha “amada” professora baixou a cabeça e encontrou-me observando-a, a ansiedade e, quem sabe, o desespero amarrados em meus braços, subindo por meus ombros e lançando gritantes olhares (des)esperançosos a ela. Foi como se um raio atingisse em cheio a coluna vertebral daquela mulher, e ela finalmente pudesse perceber qual a utilidade de todos aqueles ossos.

“O quê?”, ela soltou o ar que nem notara segurar. “Geordana, não se faça de besta quadrada!”, Joyce franziu a testa e postou-se mais uma vez imponentemente. “Você, mais que ninguém, sabe perfeitamente a quem me refiro. Quantas vezes você ouviu da própria boca do seu ‘amigo’ que ele lhe traria problemas? Quantas vezes você gritou que devia faltar-lhe um parafuso? Quantas vezes ele ficou apenas parado a sua frente, escutando e absorvendo todas as suas reclamações quanto à atitude dele, e ao fim disso tudo ele lhe virou as costas? E você, arrependida, puxou-o e abraçou-o, pedindo desculpas? Quantas vezes você pensou que eu era tão demente a ponto de não ver que ele cativou você e que, não importa o que ele lhe peça, você fará, pois ele é seu amigo? Geordana, você me considera sem coração, contudo eu tenho sorte em saber que você não fez bem ao esquecer o seu quando conheceu Jimmy.”
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5 de Espadas

Não, meu nome não é Jimmy, como muitos de vocês podem estar pensando.

Apesar de eu, na verdade, nem saber como ganhei esse apelido.

Talvez seja porque meu pai se chama James; meu irmão mais velho, James Jr.; minha irmã, Jamie (sim, Jamie, coitada dela), e meu irmãozinho, Jim.

Porque meu nome verdadeiro não tem bosta nenhuma a ver com Jimmy ou James. Não dá pra entender mesmo, então eu nem me estresso com essas baboseiras de nome e “de quem você herdou o vocativo” e blá, blá, blá. É um tédio!

Mas sou Jimmy.

Todos me conhecem por Jimmy. Ou seja, não adiantaria mudar de nome ou usar o real: ninguém ia saber de que pé rapado se trata. E, se posso dizer, Jimmy não é um apelido original. Quero dizer, leia bem! J – I – M – M – Y! Tem um Y no final!! Quem é o ser humano que quer ser levado a sério mas que tem um diminutivo como nome?? Se fosse só Jim! Ou Jamie até, como minha irmã, mas JimmY!

Às vezes eu quero morrer. Mas suicídio iria acabar com minha reputação de mentalmente equilibrado.

E também acabaria com o respeito que meu pai tem por mim, coitado do coroa, iria morrer de desgosto e teria de ser enterrado junto comigo. E minha alma iria penar por toda a eternidade!

Não, prefiro viver. Peno menos.

Mesmo carregando um apelido tosco e nada autêntico como Jimmy.

~*~

Ok, tem muita gente famosa com o nome Jimmy.

Mas eu não sou famoso, porra!

E nem quero ser, no fim das contas, porque ser famoso significa ter grana, e ter grana significa todo mundo correndo atrás de ti pedindo empréstimo e depois devendo milhões pra você, e gente te pedindo dinheiro significa mais coisa pra você se preocupar e depois se irritar, e quando você se irrita podem acontecer acidentes sangrentos e isso pode causar mais confusão e problemas do que você já tinha no início deste parágrafo sendo apenas famoso.

Então, prefiro ser só o Jimmy-que-detesta-o-próprio-apelido.

É mais simples e fácil deentender.

Já não disseram alguma vez que o apelido pega quando a pessoa não gosta dele? Pois é.

Pelo visto, isso aconteceu comigo.

E é capaz de ter sido quando encontrei aquela vidente dos diabos na rua. Cara, nem me faça lembrar!

Ela me tirou do sério, ô se tirou.

O problema mesmo foi que, depois que virei a esquina, eu trombei com um daqueles idiotas que andam olhando pro céu, e não pra frente como uma pessoa normal e com bom-senso, mais parecendo um sonhador demente tipo os dos filmes – os que babam – e me irritei ainda mais, porque eu já tava com pressa de sair de perto daquela velha maluca, mas pressa raramente eu tenho. Bom, eu trombei com o cara e fiquei todo enfezado tipo “Qual é a tua?! Por que não olha por onde anda, paspalho!”, e ele ficou todo assustado tipo “Ah, desculpa, foi mal! Não se irrita, não, amigo!”, e eu cortei ele tipo “Não sô teu amigo nada, ô! E sai da frente, aí!” e o empurrei e continuei caminhando, batendo os pés de enfurecido que eu tava. Só que daí, quando eu botei a mão dentro dum dos meus bolsos, eu encontrei lá dentro, quente e úmida, como se estivesse só esperando que eu a tirasse de lá, um 5 de Espadas.

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