Geordana
03 out 2010 Deixe um comentário
em MyLuckyJimmy
Lancei um olhar pelo aposento, sem mover minha cabeça. A sala de minha “amada” professora era ampla; seu teto abobadado e suas colunas em estilo grego lembravam-me ligeiramente os antigos palácios da nobreza. Sem exagero, centenas de cadeiras aparentemente desconfortáveis ocupavam o vazio do chão de mármore polido escuro. Enquanto isso, a luz vaga dos poucos candelabros não conseguia atingir o fim do teto, o que me dava a impressão de que havia um véu negro jogado por cima da sala. Atravessando o mar de invisíveis espectadores sentados, uma longa pena arranhava o papel sobre a escrivaninha. A mão de Nagg em meu ombro esquerdo não era tão incômoda se comparada àquele insistente ruído irritante. O guardião me fez parar a um metro de distância da escrivaninha e aguardou em silêncio. Conforme fora orientada, permaneci calada e observei as ágeis mãos de minha professora trabalharem com as letras.
Minhas pálpebras já estavam pesadas quando finalmente Joyce despregou o olhar do papel e transferiu-o a Nagg. Este fez um leve movimento com a cabeça, indicando-me. As duas grandes verdes contas de vidro voltaram-se para mim, como se eu não passasse de um tecido indiano à venda. Pude contar exatos dois segundos, e minha professora prosseguiu o arranhar incansável da pena. Perguntei-me como Nagg conseguia tolerar Joyce; ela, tão temida pelos alunos, tão falsamente respeitada pelo corpo docente.
Sensação de déjà vu – eu já vira aquela cena antes. Para evitar o tédio que se seguiria, fiz com que algo às costas da professora chamasse minha atenção; mais precisamente a estreita e alta janela de vidro canelado que permitia a vista do jardim proibido aos alunos e, mais próximo ao horizonte, as montanhas da cordilheira que cercava a escola. A pena foi largada sobre a escrivaninha e os papéis, arrumados milimetricamente. Nagg forçou minha cabeça na direção de Joyce (como ele notou que eu estava distraída?).
Ela me observava fixamente, com suas mãos suavemente cruzadas sobre seus escritos. Não sou da espécie de pessoas que se intimidam facilmente, se é que me entende. Sustentei o olhar – por exatos quinze segundos – até minha “amada” professora reagir à minha ousadia. Ela suspirou, e seus braços a ajudaram a levantar-se da cadeira, o que fez com que ficasse razoavelmente mais alta e imponente que eu. Sinceramente, nem pisquei.
“Geordana, Geordana”, os longos cachos negros de sua cabeça agitaram-se, como que me avisando de uma catástrofe. (Joyce, a revolucionária, dizia que dirigir-se aos alunos pelos seus sobrenomes fazia-os pensar que eram importantes.) “Você faz com que eu estimule minha criatividade, contudo esse é um tempo valioso que acabo desperdiçando. Sejamos curtas e grossas: o que faço para você parar de ser tão irritantemente desobediente?”
Como eu não respondesse, ela fechou e abriu as mãos e respirou fundo duas vezes. Nagg, o guardião, puxou de seu bolso externo esquerdo um pedaço de papel amassado nas bordas e estendeu-o para minha professora. Ela o recebeu, com certa ansiedade, posso dizer, e leu-o como se fosse a confirmação do aumento de seu honorário. Eu sabia o que estava escrito naquele bilhete, palavra por palavra, e sabia exatamente o que teria de fazer quanto aquilo: absolutamente nada. Joyce interrompeu bruscamente sua leitura e olhou-me de soslaio. Cerrou os dentes com força e dobrou o papel quatro vezes.
“Eu devia ter imaginado”, ela grunhiu e cruzou os braços. “Algo me dizia que a história era grande desta vez, porém eu não fazia idéia de que chegaria a essas proporções. Geordana, você não é idiota, pelo menos não completamente. Você já demonstrou que tem bom-senso – e quando digo isso não a estou elogiando, muito pelo contrário. Você não teria maquinado tudo isso, não sozinha, eu sei disso, e você também sabe, estou certa?”, Joyce descruzou os braços, apoiou as mãos sobre a escrivaninha e inclinou-se para frente ameaçadoramente.
Pude sentir seu bafo de hortelã mascada chegar a meu rosto. Como já falei, eu não faria absolutamente nada referente àquilo; primeiro, pois não havia o que ser feito; e, segundo, se houvesse, não seria minha obrigação. Eu já metera meus dedos esguios o suficiente naquela confusão tola de crianças.
“Nagg”, as contas verdes de vidro voltaram-se para ele. “Você já sabe quem procurar. Vá atrás dele neste instante, antes que consiga inventar qualquer outra irresponsabilidade que possa destruir não só a minha reputação quanto a reputação desta escola”, e sussurrou para si mesma, certamente pensando que meus ouvidos não fossem merecedores de sua fama, “que mais cedo ou mais tarde estará a meu total alcance e domínio.”
Eu bem que tentei manter a calma, contudo aquele murmúrio foi estarrecedor demais, até para mim, que já desconfiava de algo. E quando Joyce ordenou que o guardião fosse procurar alguém, eu quis ter certeza de quem seria o desafortunado.
“Ir atrás de quem?”, perguntei, pela primeira vez durante toda aquela cena, pousando minhas mãos sobre a escrivaninha e ignorando a ironia em minhas palavras.
Minha “amada” professora baixou a cabeça e encontrou-me observando-a, a ansiedade e, quem sabe, o desespero amarrados em meus braços, subindo por meus ombros e lançando gritantes olhares (des)esperançosos a ela. Foi como se um raio atingisse em cheio a coluna vertebral daquela mulher, e ela finalmente pudesse perceber qual a utilidade de todos aqueles ossos.
“O quê?”, ela soltou o ar que nem notara segurar. “Geordana, não se faça de besta quadrada!”, Joyce franziu a testa e postou-se mais uma vez imponentemente. “Você, mais que ninguém, sabe perfeitamente a quem me refiro. Quantas vezes você ouviu da própria boca do seu ‘amigo’ que ele lhe traria problemas? Quantas vezes você gritou que devia faltar-lhe um parafuso? Quantas vezes ele ficou apenas parado a sua frente, escutando e absorvendo todas as suas reclamações quanto à atitude dele, e ao fim disso tudo ele lhe virou as costas? E você, arrependida, puxou-o e abraçou-o, pedindo desculpas? Quantas vezes você pensou que eu era tão demente a ponto de não ver que ele cativou você e que, não importa o que ele lhe peça, você fará, pois ele é seu amigo? Geordana, você me considera sem coração, contudo eu tenho sorte em saber que você não fez bem ao esquecer o seu quando conheceu Jimmy.”
Não há assaltos em noites chuvosas.
03 out 2010 Deixe um comentário
em MyLuckyJimmy
A melhor ideia que já tivera. Simplesmente a melhor! Imbatível. Como não pensara naquilo antes? Algo tão bobo, óbvio e fácil. Estivera perdendo tempo e equipamentos (sem falar em homens), tudo estava saindo mais caro. Era um gênio! A partir dali, tudo seria diferente. Dificuldade (quase) zero. Bom, lógico que levaria um tempo, semanas, meses, quem sabe? Mas a ideia!… A oportunidade!… Iria mostrar para todos aqueles traidores mijões quem era o bom.
- Qual a previsão pra hoje, Limo? – perguntou, checando a 45 e pondo-a de novo na cintura.
O capanga dos dedos e dentes tortos riu:
- Chuva.
~*~
Limo segurava bem a metralhadora. Tinha muitos anos de prática, por isso fora escolhido. Aquele idiota, era como um cachorro fiel. “Limo, faça isso.” Ele fazia. Estraçalhara o ombro direito do gerente havia pouco; só um susto, talvez com uma prótese o braço fosse salvo. O único guarda de plantão gania num canto, enrolado no próprio saco. Chorão, tinha deixado de ser macho uns 4 minutos antes.
Estavam demorando demais. Bando de lesmas, sempre ele fazia tudo. Tabefe e Japa já tinham arrombado o cofre (e nem deu para ouvir por causa dos raios lá fora), mas eram dois cagados mesmo, cagados. Só tivera notícias de um cara realmente bom no que fazia, tinha participado de muitas coisas com ele, mas o desgraçado era duas-caras e delatou todos eles. Preferia nem lembrar.
Saiu para o hall de entrada e ficou olhando, através do vidro respingado, o Juvenal, todo molhado, as pistolas nos bolsos, vigiando. Esse aí tinha olhos de coruja, reflexos rápidos, mas era um imbecil para planos. E, de repente, o Juvenal caiu, um furo vermelho bem no meio do peito, enchendo-se de água.
- Merda, vam’bora! – correu lá pros fundos, gritando. – Nos acharam, vamo’ pro carro!
Os quatro carregaram duas sacolas de 10 litros cada e três maletas para dentro de um celta preto, como se fugissem de um incêndio, e não tiraram o pé do acelerador. Rodaram alguns metros, quando três viaturas surgiram, barulhentas, agudas, os pneus tinindo de novos.
- Filhos da puta – xingou e virou o volante pra autoestrada.
Por que eles apareceram? Estava tudo correndo bem! E iria terminar bem, a ideia era perfeita! Uma chuvinha não atrapalharia. Ajudaria. Riu.
- Chefe, esses PMs aí têm adesivos da região do Jimmy.
Rosnou. Era o que faltava, o traidor metendo-se no que não dizia respeito a ele.
- Filho da mãe, como ele soube?
- Talvez o Dito tenha dado com a língua nos dentes, você sabe que ele é todo cagado pro lado do Jimmy, né?
- Merda, ele que vende as armas pra nós! Vai se fuder mesmo, vou voltar lá e estourar a cabeça dele.
E então duas das viaturas vieram pelos lados, prensando-os, e ele deixou que o velocímetro passasse dos 140km/h. Não iriam pegá-lo, era um gênio, haveria mais daqueles assaltos, pois aquela era a melhor das ideias! Era pessoal agora, ia sair ileso e esfregar na cara daquele traidor toda a grana guardada no porta-malas, ia jogar umas notas no esgoto, ia fazê-lo implorar pra ter algumas. Elas cheiravam tão bem!… Faziam a tempestade e o asfalto escorregadio transformarem-se em mansões com piscina e salão de jogos com strippers, Ferraris e Porsches, câmaras de bronzeamento, Miami, LA e a cabeça de Jimmy numa bandeja de prata.
A cortina d’água tornou-se mais grossa, e as luzes da polícia diminuíram. Estavam os deixando para trás, iam vencer! Riu mais uma vez e sentiu o chão sumir. Estavam voando?
- Chefe!
Girou o volante, o carro derrapou e não obedeceu mais.
~*~
A foto de capa do jornal mostrava um celta destruído contra uma árvore, a lataria toda enfeitada com toneladas de retângulos coloridos ensopados. Diziam que os assaltantes haviam alvejado o gerente e o guarda do banco e fugido com aproximadamente 300 mil em notas de cem. O problema fora o dia e a hora em que eles decidiram agir: com aquela chuva torrencial, dirigir era suicídio. Nem o porta-malas sobreviveu. Graças a uma denúncia anônima, a polícia pôde impedir a fuga dos criminosos. Sim, houvera prejuízos, contudo eram delinquentes a menos no mundo.
O rapaz largou o jornal sobre a singela mesa de café e espreguiçou-se. Um sorriso satisfeito e cheio de si brincava nos lábios dele, o sol da manhã iluminando-lhe os revoltos cabelos castanhos.