Ruiva

Suas habilidades de predador ainda não haviam sido ativadas. Das duas, uma: ou ele estava tão poderoso e seu trabalho se tornara tão eficiente que não existiam mais alvos, ou, pelo contrário, perdera a prática da caça e agora não passava de uma “justificativa de limpeza”. Por esse e outros motivos, percebia-se de testa franzida com alguma frequência. No fundo, as cantigas irritantes de Rinnegato sobre o Salvador precisar treinar mais o assustavam, apesar de não demonstrá-lo; elas trariam grandes complicações se fossem levadas a sério. Mas, contanto que mantivesse sua promessa, tudo estaria em seu devido lugar. Era o que esperava. Predar tornara-se uma fuga à rotina da capital, uma distração rápida, unir o necessário ao conveniente e agradável. Contudo, depois de quase sete horas diárias rastreando as mais diversas ruas, avenidas e travessas a pé, as suspeitas de Ciro começavam a ganhar credibilidade para ele próprio. Deveria ir embora dali, novos ares, novas almas-base. Quem sabe um lugar onde Frigus demorasse um pouco mais para encontrá-lo?

Cansado de revirar-se na cama até quase o meio-dia fingindo dormir, decidira sair “a serviço” mais cedo. Do lado de fora do luxuoso quarto de hotel, a luz do sol ainda não queimava a pele nem os olhos; as pessoas, ainda com olheiras, marchavam no ritmo apressado de início de manhã; o número de carros rosnando aumentava exponencialmente. Tudo parecia relativamente normal na vida humana da capital.

A atenção de Ciro vagava aparentemente aleatoriamente pelos rostos e fachadas de prédios, seus pés acompanhando o compasso de sua preocupação crescente. Embora tivesse ótimos motivos para desesperar-se, sentimentos como esse nunca haviam feito parte de seu feitio; todos sempre o haviam elogiado por sua autoconfiança. Contudo, o caso tornara-se inquietante. Nada de almas, nada… Nenhuma ondulação quente nas redondezas, nenhuma atmosfera de leveza e flexibilidade, nada que lhe trouxesse aquela vontade de rasgar carne, de ver auras se esvaindo. Nada. Chegando a uma esquina, dobrou à esquerda, sem qualquer intenção de parar de caminhar. Nem mesmo as bebês. Um leve arrepio subiu por sua espinha ao relembrar, uma sensação oca em seu estômago. O remorso, a culpa. E depois a ira de Frigus. Já era capaz de sentir a corda apertando-lhe o pescoço. Então, está decidido: vou embora daqui.

De repente, uma movimentação a sua frente o fez diminuir o passo. Um garoto loiro com aproximadamente suas idade e altura vinha correndo em pânico, carregando uma bolsa feminina numa das mãos, concentrado na própria fuga para sequer notar Ciro. Desde cedo… Subitamente e sem realmente pensar, o predador ergueu o braço exatamente à altura do peito do ladrão. Com um baque surdo, o garoto trombou com Ciro, perdeu o equilíbrio e caiu sentado ao tropeçar no pé que o outro pusera propositalmente junto aos seus calcanhares.

Atordoado e confuso, o assaltante massageou as costas enquanto grunhia imprecações, sacudiu a cabeça e tentou se erguer, mas a dor da queda pareceu ser maior do que o esperado. Ciro apenas observou enquanto o garoto, agarrado à bolsa, era alcançado por outros dois homens que gritavam e xingavam. Eles puxaram o ladrão para cima sem qualquer delicadeza e iniciaram uma discussão acalorada repleta de empurrões, algo sobre loteria, dinheiro, uma mulher e traição. O mesmo de sempre.

Ciro virou-se, enfadado, deixando os três brigões de lado, para continuar seu tedioso trabalho, entretanto foi barrado por um par de olhos castanhos curiosos e pacíficos que acompanhavam o desenrolar da situação. Pertencia a uma garota de vestimenta e traços discretos, exceto pelos longos cachos ruivos e pelo caderno amarelo fosforescente ao qual estava abraçada, parada meia dúzia de passos à frente. Ela corou quando percebeu que ele a encarava, porém manteve o olhar firme no dele.

O quê? Ciro não sentiu a raiva que o alertava caracteristicamente para uma alma-branca. Sua pulsação não disparou, e seus tímpanos estavam perfeitamente saudáveis. Ela não é… Nada de aumento de pressão intracraniana ou dor de cabeça. Seus instintos não haviam sido ativados, ainda estava consciente de si mesmo. Obviamente ela não é, mas… Contudo, havia algo mais. Nunca lhe ocorrera algo assim. Suas mãos formigavam dentro dos bolsos da calça; seus pensamentos perderam aquele excesso de tensão e nervosismo; e sentiu-se subitamente minúsculo, inútil na presença dela. O desconforto foi tanto que, pela primeira vez desde que se tornara predador, ele desviou o olhar para longe. E imediatamente a sensação de inferioridade desapareceu. Covarde. É só uma garota.

Irritado consigo mesmo, ergueu a cabeça. Porém ela já se afastava, acenando para que um ônibus parasse.

 

Promessa

Não nevava. Ciro nunca vira a neve de perto. Sempre se imaginara correndo com os vizinhos e jogando bolas de neve em todos, a rua das casas deles coberta por aquela massa de gelo. Haviam lhe dito que a neve era pesada, mas ele não conseguia visualizar uma coisa tão branca e fofa como algo difícil com que se lidar. Talvez essa fosse uma das coisas que ele realmente não conhecia.

O garoto parou em frente a uma vitrine e observou seu reflexo. Fazia um tempo que ele não pensava unicamente em si mesmo. Que roupa vestir, a que festa ir, que lanches comer, com quem sair; questões típicas, fáceis e fúteis de um adolescente. Espere. Não estivera pensando em si mesmo? O fato de ainda estar vivo não provava que seu pensamento se voltara completamente para a sobrevivência? Ciro analisou seus cabelos castanhos bem tratados; o rosto levemente anguloso; a pele perfeita, exceto pelo início de olheiras; o peito e os braços começando a definirem-se; as mãos dentro dos bolsos das calças jeans escuras; a camiseta cinza de algodão fino e os tênis pretos de marca. Pareço estar sobrevivendo realmente bem.

Fitou-se nos olhos cor-de-mel e o que viu, encravadas ali, foi frieza e dor. Mas a um custo alto. Deu as costas para a vidraça, contrariado. Não estava em condições de reclamar; em troca de tudo que se quer, é necessário perder algo. Nada mais justo. Não é?

Continuou andando, chutando pedrinhas ocasionais na calçada deserta. Não havia pressa, pois não havia um lugar a que ir. As casas (sem exceções) estavam animadas, repletas de luzes, cores e sorrisos. Era como se, no Natal, todos os problemas se dissipassem ao menos durante alguns dias; o calor humano crescia consideravelmente – para mais tarde voltar a apagar-se.

O clima era abafado, sem brisa; quente, mas não aconchegante. Ciro estacou à janela de uma moradia modesta, bem cuidada e discreta. Lá dentro as pessoas riam. Três casais (sendo um deles de idosos) e um grupo de sete crianças, todos reunidos ao redor de uma refeição farta. Um pinheirinho de tamanho médio adornava um dos cantos do recinto. Nada extravagante ou numeroso, porém singelo e feliz. O garoto acompanhou por alguns instantes as ações deles em um estado próximo à hipnose. Os sorrisos, os abraços, a alegria, a companhia. Lembra-me o último jantar em família que a mãe inventou de fazer.

Fechou as mãos em punhos e cerrou os dentes. Não era uma de suas memórias mais belas. O jantar não tivera um final feliz. Gritos, comida voando, pratos estilhaçados, presentes destruídos, corpos caídos. Somente um menino encolhido – e vivo.

- Desgraçado.

Voltou a caminhar, ainda sem rumo, porém com a ansiedade que a raiva tem. Não sabia o que estava fazendo da própria vida; sabia apenas que estava sobrevivendo a tudo, conforme o prometido. Esse era seu suporte, aquilo que lhe dava forças para suportar um dia após o outro. Não importa onde você está, mãe. Não vou quebrar minha palavra.

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