Solidez
24 dez 2011 1 Comentário
em Aleatórios
Quando a tristeza pesa, eu penso num lago de água parada. Estática. Um abafamento, um sufocamento morno e viscoso me empurrando para baixo, me comprimindo o peito, os pulmões e o pensamento. Um lago profundo de água escura, opaca, onde a luz do sol não consegue entrar.
Mas eu sempre estou numa área cinzenta. Um cinza morto e débil. É uma grossa camada de fraqueza que deixa a água do lago viscosa e pesada. É difícil distinguir as coisas nesse fundo cinza, as cores se perdem no meio dele. Ele as engole. Essa é a sensação: ser engolido pela tristeza. Os músculos e o ânimo amortecem, perdem o vigor. E é muito fácil se deixar levar pelo cinza morno.
A pressão é alta, vem de todos os lados e é sempre a mesma. O pior é que eu mergulhei de propósito. Ou melhor, não lutei para evitar isso. Não me debati, não me segurei à margem. Foi muito rápido, por isso. Eu nem notei; só quando tudo ao redor de mim estava encharcado, percebi o lago. E, lógico, se tornou difícil respirar.
Essa água não vem pulmão adentro. Ela não preenche, ela espreme. (Pobres laranjas.) Um rolo compressor não é uma boa imagem, ele é seco e plano demais. Insisto no lago de água pesada, ele envolve. Há ar, há oxigênio, mas eles também são resistentes. Não consigo respirar. As inspirações são longas e cansativas demais. A água não é fluida. A tristeza tem uma solidez incrível. Mas eu ainda posso me mover, e a água se molda a mim. Mas nunca some.
E só há eu aqui. Nunca encontrei ninguém no lago. Não que eu o tenha explorado, a pressão e o amortecimento não me encorajam. Mas sou sempre apenas eu. Parada. Sufocando. Na água estática. Numa solidão tão sólida. Numa solidez tão solitária.
(Preciso sair. Preciso de ar leve. De vento. Meus braços estão muito pesados para me puxar para fora. Não é confortável aqui, não é bom. Mas me deixa inconsciente, e isso ajuda a esquecer que estou aqui.)
jan 09, 2012 @ 00:11:55
Mas é claro, ninguém te culparia pelo silêncio esmagador que procuramos às vezes. No fundo é o que todo mundo quer. O que as pessoas não entendem é porquê muitas vezes esse ambiente vicia. Vicia porque é bom, vicia porque o aperto no peito vira aperto no corpo todo. Porque a gritaria sem nexo do pensamento vira zumbido e então desaparece. É bom, não é? Parar de pensar e só… deixar acontecer.