Chove alívio.

Choveu a alguns quilômetros daqui. Não vou tentar estimar quantos, não tenho mais essa capacidade. Esses urbanismos fazem a gente perder certas habilidades. Não que esta não seja uma cidade, afinal, mas o cheiro do vento de chuva de uma cidade pequena é sempre diferente do de uma grande.

Ela cresceu, mudou. Mas o verde continua aqui. Inclusive o cheiro refrescante da poeira molhada, varrida pelo vento e pela água, renovando tudo. É a alma espreguiçando. Se é que alma tem braços e pernas para espreguiçar. Triste se não tiver.

Aqui é mais fácil ver o horizonte, o vento é mais contínuo. Não há barreiras para o olhar. Exceto as barreiras dos costumes – muitos já doentes e vazios – mas o cheiro apaga tudo isso.  Não choveu aqui, foi nas redondezas. Se fosse lá, não faria tanta diferença, o vento talvez nem me alcançasse, e eu nem percebesse. Dessas barreiras eu não gosto. Prender a vista entre concreto me angustia. Em compensação, as possibilidades são maiores, e os limites físicos não são suficientes para diminuí-las. Aqui os costumes são jaulas, e o estranho é quem está fora delas.

Tudo se acalma quando chove. Aqui nem choveu, e apenas o vento já aquietou tudo. A alma se conforta. Descanso após dias cheios. O cheiro do vento de suspiro aliviado.

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