O Silêncio do Campo

A brisa batia suavemente no rosto pálido do rapaz; ele afastou uma mecha do cabelo castanho-claro que lhe caíra sobre os olhos. Em seus 16 anos de vida, ele nunca vira paisagem tão bela quanto aquela: extensões imensas de verdes de todos os tons e para todas as direções, colinas distantes e macias – feito as colchas felpudas que cobriam os móveis dos inúmeros hotéis que frequentara – vagamente recortadas contra o céu de um azul límpido e fresco. A serenidade e o silêncio eram ainda mais chamativos, pois combinavam tão perfeitamente que, sem eles, aquela beleza estaria errada.

Era um lindo lugar, sim, mas era muito diferente da cidade. Muito calmo, e vazio, e solitário. Ele estranhava o fato do pai tê-los mudado para o campo, de uma hora para outra, pois o homem sempre fora um espécime urbano. Ali, ele estava longe de todos os seus antigos contatos, seus amigos, suas negociações, tudo que preenchia seu viver. De um modo pessimista, aquilo aparentava uma fuga. Desesperada.

Verdadeiramente, o garoto notara que o pai andava preocupado – muito, aliás – com alguma coisa. Quando questionado, afirmara que era apenas um engano judicial, nada complicado de se resolver: um “pessoal” o acusara de algo que não fizera. Um bom advogado perante o juiz cuidaria de tudo. Entretanto, pouco depois disso, as malas estavam prontas, os objetos e móveis empacotados, e pai e filho estavam prontos para mudar-se para o campo. O rapaz sentia o medo pairando sobre a vida daquele homem, o pânico crescendo, a paranoia, o terror. O que fazer? Então, uma fuga parecia ser extremamente apropriada; evitar os medos é aceitável em determinados momentos, espairecer, descansar.

- Ei, você! – alguém chamou, às costas do garoto.

Intrigado, ele virou-se, espremendo os olhos à luminosidade forte, natural e cegante do sol, perguntando-se quem estaria ali, no meio do nada. Deu de cara com um homem, que deveria ser uns cinco anos mais velho que ele e que vestia uma jeans rasgada nos joelhos, uma camiseta que algum dia já fora bonita e, nas mãos esticadas à frente, uma pistola automática reluzente – quem sabe mais ofuscante que o próprio sol.

O rapaz sentiu um arrepio descer por sua espinha até encontrar os tornozelos. Já vira seu pai “brincando” com uma daquelas “belezinhas” – 19 vezes, se suas contas não estavam equivocadas.

- Você é o filho do General? – quis saber o homem, cujos cabelos escuros, curtos e desgrenhados faziam par com seus olhos azulados raivosos.

- Sim, sou – disse o hesitante rapaz.

- Aquele demônio, desgraçado, filho da-

Tiro.

O garoto sentiu queimar seu peito, incontrolavelmente, mas a brisa aliviou o calor sufocante, e tudo ficou escuro e quieto.

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