Som de escolha

                A música aguda e desafinadamente irritante ainda estava balançando sobre as casas e repetindo sem cessar as incríveis vantagens daquela escolha.

                “Por que eles fazem isso, Sissi?”, perguntou Ângela, seu pequeno nariz colado à janela.

                Aos plenos seis anos, a menina infernizava o dia da babá com questões atrás de questões. E não se duvidava que naquela noite não seria diferente. A mulher suspirou, enfadada, e largou a revista de frivolidades.

                “Por quê, Sissi?”, insistiu a garotinha, afastando-se do vidro e descendo da cadeira.

                “Ahn, bem, Ângela”, a babá coçou a cabeça, procurando alguma boa teoria. “Eles PRECISAM fazer isso, sabe? Eles têm de, ahn, fazer a gente gostar deles… Você não vai entender.”

                “Mas isso é tão chato”, enfatizou o adjetivo com pulinhos.

                “Eu sei, você quer que eu faça o quê? A cada dois anos é essa coisa toda, vai e voltam papeizinhos, tralalá e blablablá. E eles acham que nos convencem.”

                “Se eles querem que eu goste deles”, resmungou a garotinha, subindo novamente na cadeira e olhando para a rua escura, “é bom pararem com essa música boba.”

                “Tudo isso, Ângela”, filosofou a babá, pegando a revista e folheando algumas páginas, “faz parte de um processo intrincado e que muita gente que deveria entender não entende. Quando você for maior, o seu pai vai explicar cada palavra para você, e você vai saber exatamente por que essa canção tão chata na verdade é tão importante para todo mundo.”

                E pôs-se a ler uma matéria sobre tinturas capilares. A menina observou a mulher por longos minutos e, então, voltando-se mais uma vez para a janela, soltou:

                “Eles devem ter lavado seu cérebro, Sissi, porque você está falando difícil.”

 

  

 

By Moony.™

 

 

Responder a esta postagem