Na primeira vez – de minha vida inteirinha de quinze anos e alguns meses – em que escutei João Gilberto, por sorte eu tinha papel e caneta a meu lado. Porque saiu-me uma daquelas inspirações. Um poema que pareceu-me muito apropriado para o estado o qual acabo de deixar. Contudo, o que me assustou foi o fato de que, quando escostei a caneta no papel para escrever “E não sei”, só a levantei ao pontuar o “guie-me”. *engole em seco* Isso nunca aconteceu comigo. Escrevi direto, em poucos segundos, sem fazer mudanças significativas, depois.
Utopia
E não sei mais o que chamar de utopia
Tudo some com a neblina pesada
do fim de tarde cinza e crua
Não encontro as palavras
Tateio em vão
como na brincadeira de infância
uma venda falsa
(falsamente cruel)
A circunstância zomba de mim
Cara dura
Quero gritar!
Às estrelas de papel à lua de metal
Injustiça!
Cala-te, coração
e deixa que a frieza toque meus ombros
e guie-me.