Cultura, para mim, é e não é:

Não leio jornal com frequência – certo, confesso, leio raras colunas indicadas por meus pais e só. Mas isso não impede que eu concorde com o que leio, ou que minha opinião não seja infame.

Zero Hora, sábado, 14 de novembro de 2009, coluna de Montserrat Martins, psiquiatra. Sinto-me na obrigação de transcrever um trecho seu que considero indispensável:

“(…) assisti surpreso, na formatura de uma turma de Pedagogia, às formandas dançando funk no palco. Quando desabafei minha sensação de estranheza para o meu filho de 15 anos (que é um cara tranquilo e de bons valores), explicando que eu achava ‘muita exposição’ a dança funk, ele me respondeu com um argumento definitivo: ‘ Eu gosto’.”

Com todo o respeito, acredito que luta de boxe é mais cultural que funk. Exceto, lógico, para alguém que venera o erotismo hiperbólico, doente e incessante. Oh, sim, tudo é festa, tudo é prazer, viva agora, não seja careta, se entregue e não sei mais o quê. Porque, hoje, só o que tem valor é o que é rápido e que satisfaz. E onde estão os valores? Espere, não os encontrei na geladeira; devem ter embalagens novas? Ou então eles são importados e portanto não chegaram ao Brasil ainda? Ah, não, sendo do exterior, são mais caros, e apenas os donos do dinheiro podem adquiri-los. E funk não é sinônimo de dinheiro, mas sim de festa.

Eu estava na cozinha noutro fim de tarde, e a TV permanecia ligada para me fazer companhia (é sempre reconfortante ouvir vozes humanas, mesmo que discutam futilidades). E notei que era hora daquela nova novela e vi a atriz usando uma bermuda (bermuda! Não short, não se confunda) branca e uma blusa azul posta por dentro da bermuda, cabelinho curto, quase chanel, tão simples e discreta a moça. Juro, fiquei boquiaberta. Isto é o século XXI? Digo, para alguém que, desde que nasceu, vê mulheres com os maiores decotes possíveis, concorda-se que é chocante encarar a discrição de 50 anos atrás voltar. Não era… “natural”, não combinava com a era do funk. Eu gostei, sim, ao menos aquela vestimenta demonstrava algum pudor, contudo não era natural, era forçado demais! Uma agonia me invadiu.

Cite-me pessoas com pudor, com vergonha na cara, que tenham uma vozinha no fundo da cabeça que diz “Ah, melhor rever isso, acho que não seria justo ou honesto…”. Também, quem se importa? Em 2012, o mundo acaba mesmo. Nestas linhas, ponho minha revolta. Em meus 16 invernos, assisti à humanidade apodrecer – e poucos se salvam. Desde a alma desses seres supostos racionais há egoísmo, interesse, indiferença, desprezo, e nem estou me referindo aos sete conhecidos pecados capitais! Eles já são fichinha. O câncer – ou melhor, a AIDS (por não ter cura) – do homem é a indiferença. Ora, aquele moço está morrendo ali no canto. Ah, deixe que morra, está consumindo meu oxigênio.

Mangás e animes podem não ser a melhor literatura ou entretenimento. Sim, pura viagem e tals. Mas, se há uma coisa que Death Note me fez ver, é que o mundo está apodrecendo. (E só. Não me baseio em ficção, tiro morais dela.)

Reclamações na saída.

O Silêncio do Campo

A brisa batia suavemente no rosto pálido do rapaz; ele afastou uma mecha do cabelo castanho-claro que lhe caíra sobre os olhos. Em seus 16 anos de vida, ele nunca vira paisagem tão bela quanto aquela: extensões imensas de verdes de todos os tons e para todas as direções, colinas distantes e macias – feito as colchas felpudas que cobriam os móveis dos inúmeros hotéis que frequentara – vagamente recortadas contra o céu de um azul límpido e fresco. A serenidade e o silêncio eram ainda mais chamativos, pois combinavam tão perfeitamente que, sem eles, aquela beleza estaria errada.

Era um lindo lugar, sim, mas era muito diferente da cidade. Muito calmo, e vazio, e solitário. Ele estranhava o fato do pai tê-los mudado para o campo, de uma hora para outra, pois o homem sempre fora um espécime urbano. Ali, ele estava longe de todos os seus antigos contatos, seus amigos, suas negociações, tudo que preenchia seu viver. De um modo pessimista, aquilo aparentava uma fuga. Desesperada.

Verdadeiramente, o garoto notara que o pai andava preocupado – muito, aliás – com alguma coisa. Quando questionado, afirmara que era apenas um engano judicial, nada complicado de se resolver: um “pessoal” o acusara de algo que não fizera. Um bom advogado perante o juiz cuidaria de tudo. Entretanto, pouco depois disso, as malas estavam prontas, os objetos e móveis empacotados, e pai e filho estavam prontos para mudar-se para o campo. O rapaz sentia o medo pairando sobre a vida daquele homem, o pânico crescendo, a paranoia, o terror. O que fazer? Então, uma fuga parecia ser extremamente apropriada; evitar os medos é aceitável em determinados momentos, espairecer, descansar.

- Ei, você! – alguém chamou, às costas do garoto.

Intrigado, ele virou-se, espremendo os olhos à luminosidade forte, natural e cegante do sol, perguntando-se quem estaria ali, no meio do nada. Deu de cara com um homem, que deveria ser uns cinco anos mais velho que ele e que vestia uma jeans rasgada nos joelhos, uma camiseta que algum dia já fora bonita e, nas mãos esticadas à frente, uma pistola automática reluzente – quem sabe mais ofuscante que o próprio sol.

O rapaz sentiu um arrepio descer por sua espinha até encontrar os tornozelos. Já vira seu pai “brincando” com uma daquelas “belezinhas” – 19 vezes, se suas contas não estavam equivocadas.

- Você é o filho do General? – quis saber o homem, cujos cabelos escuros, curtos e desgrenhados faziam par com seus olhos azulados raivosos.

- Sim, sou – disse o hesitante rapaz.

- Aquele demônio, desgraçado, filho da-

Tiro.

O garoto sentiu queimar seu peito, incontrolavelmente, mas a brisa aliviou o calor sufocante, e tudo ficou escuro e quieto.

A Vampira de Sussex

A Vampira de Sussex

Fanfic de Pietra Cassol Rigatti, baseada na história homônima

de Sir Artur Conan Doyle e na saga de Stephenie Meyer, Crepúsculo.

“E, muito logicamente, seu filho, Jack, passou a ter ciúmes do bebê pela atenção que você, sr. Ferguson, cedia ao pequenino. Algo tão forte a ponto de levar o jovem a tentar matar a criança não uma, mas duas vezes. E o fato de morarem em uma casa com artefatos peruanos corrobora perfeitamente com minha teoria!”, as palavras de Sherlock Holmes ainda pairavam no quarto mesmo após a partida do detetive e do doutor Watson.

Robert Ferguson estava debruçado na cama sobre a qual sua esposa ficara retida todos aqueles dias por suspeitosamente ser uma vampira.

“Querida, Júlia, perdoe-me”, insistia o abalado homem, seus cabelos desgrenhados de nervosismo. “Não foi justo pensar assim de você, por favor, perdoe-me!”

“Bob, o que me entristece é saber que você cogitou que eu atacaria meu próprio filho”, os olhos negros da mulher brilharam como se estivessem úmidos pelas lágrimas. “Isso é impensável, Bob querido!”, sua voz se tornou aguda de dor.

Ele segurou a mão dela, arrasado.

“Por minha culpa, você se magoou e ficou doente – sinta como sua pele está mais fria que o normal! Júlia, perdoe este homem desgraçado.”

“Eu o perdôo, querido”, ela sorriu levemente.

O rosto do sr. Ferguson se iluminou, e ele beijou a mão da esposa.

“Obrigado, Júlia amada, obrigado por sua compaixão! Agora, descanse um pouco.”

“Sim, preciso restaurar minhas forças.”

Ele levantou-se – e seus ombros pareciam relaxados após uma missão cumprida. Deitou um beijo suave na testa da mulher e saiu do recinto, fechando a porta, às suas costas, com destreza.

Júlia permaneceu imóvel, encarando o teto, um sorriso de alívio brincando em seus lábios, até os passos no corredor se tornarem inaudíveis. Ela aguardou o tempo de duas inspirações rápidas e sentou-se na cama, os lençóis ainda enrolados em seu vestido vermelho amarrotado. Perscrutou ansiosamente o quarto silencioso, de um cantou a outro, como se sentisse a presença de alguém – ou escutasse vozes distantes.

Um riso divertido saltou de seu peito, e Júlia deixou a cama e foi até a janela, seu caminhar ligeiro tão elegante como se flutuasse. Apoiando-se no peitoril, ela esquadrinhou o jardim e as árvores mais ao longe, seus olhos escuros mal parando sobre as cores e formas. Franzindo levemente o cenho, ela chamou, tão baixo como se murmurasse para si mesma:

“Alice! Alice!”

O vento balançou as flores lilases cuidadosamente plantadas no gramado logo a sua frente, e nada mais se moveu. Júlia torceu o canto da boca, apenas alguns poucos milímetros. Deu uma última olhada naquela extensão folhosa verde e soltou um suspiro palidamente decepcionado. Voltou-se para o quarto, que fora sua prisão por tanto tempo, e pôs-se a desamassar a saia do traje cor de rubi.

Um ruflar próximo chamou sua atenção, e uma pequena garota, alva como uma folha de papel, usando um vestido verde-musgo, singelo, e cujos cabelos curtos espetados estavam adornados com uma única e minúscula flor branca, pendurou-se na janela, os olhos rindo.

“Alice!”, Júlia juntou as mãos, entusiasmada, seu sorriso largo dando vista a todos os dentes meticulosamente brancos.

“Júlia!”

A garota puxou-se para dentro do aposento, como se mulheres comumente agissem daquela forma.

Elas se abraçaram, parecendo duas crianças felizes por estarem juntas, sorrindo, e seus risos soando como o doce badalar de sinos bem afinados.

“Ah, obrigada por vir, Alice”, disse Júlia, enquanto se afastavam. “Aliás, obrigada por tudo! Sem sua ajuda, estaríamos todos – prefiro nem imaginar! – em meio a uma tragédia, um escândalo. Sua ideia foi magnificamente engenhosa!, e você salvou o meu bebê! Você foi ótima! Sou sua eterna devedora.”

“Ora, Júlia”, Alice fez um gesto vago com a mão, “o que fiz não foi nem um pouco incrível; foi um prazer. E espero que você pese com cuidado o significado literal da palavra ‘eterna’.”

Ambas riram, divertidas, durante uns cinco segundos.

“Contudo, há algo que me preocupa”, confidenciou Júlia. “No momento em que vi meu bebê envenenado, sequer raciocinei a respeito de sugar-lhe o sangue na minha atual situação. E foi tão árduo, para mim, parar!…”, sua face de porcelana contorceu-se de agonia. “Alice, essa outra opção de vida da qual me falou, esse ‘vegetarianismo’, é seguro? Não quero reviver uma passagem tão angustiante quanto aquela.”

Alice fitou gentilmente a amiga, cujo rosto detinha um vinco tão profundo de medo que aparentava sempre ter existido ali, e segurou suas mãos.

“Creia-me, Júlia, essa nova opção é absolutamente viável. Eu lhe garanto. Nessa minha visão, a família está feliz e saudável. Logicamente, é necessária muita determinação para controlar a sede. Mas o que não fazemos por quem amamos?”, e sorriu, cúmplice. “Oh, e mais um detalhe: dentro de alguns anos, a sua ‘situação’ poderá se tornar problemática. Seria interessante tomar um chá de sumiço.”

Júlia assentiu, séria.

“E quanto a Jack?’

Um brilho demoníaco atravessou os olhos de Alice, e ela arreganhou maldosamente os dentes.

“Creio que ele não causará mais confusões.”

E elas riram juntas; gargalhadas guturais, de arrepiar os cabelos da nuca, que reverberaram pelo quarto.

Passado o acesso de diversão, a pequena garota deu três pulinhos graciosos e abraçou Júlia.

“Agora, eu preciso ir. Não vejo necessidade de lhe desejar boa sorte – algo me diz que tudo dará certo”, e piscou um olho.

“Obrigada mais uma vez, Alice, e volte para nos visitar algum dia.”

Ágil como um beija-flor, a garota dependurou-se novamente na janela e soltou-se no gramado. Rindo, voltou-se para a amiga e acenou.

“A propósito, desculpe pela pressa em partir. Estou ansiosa para encontrar certo vampiro que eu vi.”

E desapareceu na direção das árvores.

Fim.