Escritores são deuses

Fevereiro 5, 2009 at 4:10 pm (Uncategorized)

Todo escritor é uma espécie de deus. Alguns são extremamente beatíficos, ao passo que outros não valorizam muito o conceito de “vida” que dão a suas criações. É possível encontrar autores que procuram incessantemente caracterizar o enredo com o cotidiano cativante e profundo do mundo ao seu redor, contudo não é incomum ver que há uma grande quantidade que prefere o incrível e fantástico ao simples e real.
Entretanto, ouso dizer que todos eles, sem exceção alguma, são deuses.
“Certamente ela se refere ao anormal talento de tais best-sellers, já que na atualidade uma boa trama é crucial.” Não, não falo a respeito do suposto talento de alguns desses deuses. (Aliás, o talento é algo que se alcança. Os raros casos de humanos super-talentosos, que nascem sabendo como mudar a formulação de um produto químico, ou então saem tocando complexas melodias aos meros três anos, eles são corretamente denominados de raros.)
“Logicamente, então, ela está comentando sobre os grandes mestres: os clássicos.” Novamente, não. Esclareço: eles também são deuses. Porém, não são apenas esses espécimes aos quais aludo. Os Mestres são exemplos dos Talentosos acima – os inteligentemente talentosos. Mas ainda não podem explicar com perfeição o que tento dizer.
Um escritor é um deus.
Quando costura todos os elementos da sua narrativa, suas personagens, seus cenários, suas falas, todo o enredo, o escritor tem carta branca para atuar como bem desejar. Se escolhe simplesmente observar, ele observa. Se decide mergulhar de cabeça e sentir as emoções do protagonista, ele mergulha. Se prefere estar por perto e manter-se seguro do tribular da maré, ele o faz.
E, tendo todo o poder possível, ele age como bem entender, é levado por suas emoções, e o destino de suas criaturas não passa de um fiapo de imaginação prestes a cair no papel.
Ará. E fez-se o sentido!
Para explanar mais claramente o que pretendo aqui, farei uso de um exemplo.
Escolherei uma personagem para esta demonstração. Bom, preciso criá-la. Uhm, um homem parece-me apropriado. Estatura alta, cabelos castanhos, olhos negros, boa compleição física. Seu nome será… Cássio. Soa bem.
Perfeito. Tenho minha personagem. Falta-me saber o que acontecerá a ela. Sua idade deve girar em torno dos 25 anos. Tem um emprego numa empresa transportadora. Almeja o quê? Um salário melhor, de início, e uma esposa, mais tarde. Isso.
Agora, vou mexer na vida tranqüila de Cássio. Porque ninguém vive eternamente em paz – e minha história jamais seria lida.

Em uma bela manhã de outono, nosso herói Cássio deixou seu pequeno apartamento no centro da cidade assobiando, feliz. Em uma semana, comemoraria seu 26º aniversário e ele tinha uma ótima expectativa quanto a isso. Fazia algum tempo que planejava uma festinha com seus amigos de trabalho, e aquela parecia ser a deixa tão esperada.
Chegando à parada do ônibus, pôs-se a admirar as fofas nuvens no céu. Não era um rapaz romântico, mas aprendera duramente a aproveitar a vida a partir das minúsculas coisas; como as nuvens. O som de uma buzina o trouxe novamente à realidade, e ele subiu no coletivo. Cumprimentou o motorista com um aceno de cabeça, pagou sua passagem e sentou-se, como sempre, à janela.
Não se passou muito tempo desde a entrada de Cássio no ônibus quando houve uma brusca freada. “O que aconteceu?”, questionou-se nosso herói. Esticou o pescoço e tentou ver o motorista. Mas o que enxergou fez sua espinha congelar.
- Passe a grana! – segurando uma arma, um rapaz exigia do cobrador.
Assustado, o homem juntou todas as cédulas e as entregou ao assaltante. Cássio tateou por sua carteira, pensando em escondê-la em alguma fresta do banco. O rapaz com a pistola virou-se para encarar a pessoa que tentava enganá-lo.
- Ei, tu! Que ‘tá arrumando aí?
Cássio sentiu seu rosto pegar fogo.
- N-nada – gaguejou, a carteira tremendo nas mãos.
- Tô sabendo – resmungou o rapaz. – Aproveita que eu tô de bom humor hoje e me passa a carteira, tio.
“Tio? Essa foi demais!”, indignou-se Cássio. Franzindo a testa, ele jogou a carteira de qualquer jeito para o rapaz, mas fez questão de retirar seus documentos antes disso.
- Valeu – retrucou o assaltante, com um sorrisinho cínico no rosto, enquanto guardava seu roubo no bolso. – Até mais… – e saiu correndo pela porta do ônibus.
- Tio?! – Cássio não se agüentou. – Moleque, eu tenho idade para ser seu pai! A audácia!…
O motorista o olhou pelo espelho retrovisor e deu um sorrisinho triste. Coisas assim aconteciam sempre. Pisando no acelerador, pôs o ônibus em movimento.

Até agora, temos uma pequena agitação na vida anteriormente tranqüila da nossa personagem. Vejamos onde pararemos se chacoalharmos mais alguns pontos…

Cássio cruzou os braços, irritado. O fato de ter sido tratado como “tio” o tirara mais do sério do que ter perdido seu dinheiro. Com um suspiro resignado, recostou-se no banco.
Cinco minutos depois, nosso herói adentrou a saleta dos funcionários de sua empresa. Desejou um bom dia a todos seus amigos e dirigiu-se à mesa em cima da qual havia uma pilha de afazeres. Cássio procurou a folha em cujo cabeçalho sabia que seu nome estava escrito.
Foi interrompido por um de seus colegas – na verdade, o sub-chefe, chamado assim por suas costas.
- E aí, Cássio? – cumprimentou-o o homem franzino. – Belo dia hoje, não? Suas coisas foram transferidas para aquele armário lá – apontou para o final de um corredor. – E, aliás, – baixou mais a voz – o chefe quer falar com você. Vai nessa – saiu, dando um leve tapa nas costas do nosso herói.
Cássio observou o homem se afastar de jeito um pouco bizarro e levantou uma sobrancelha. Largou as folhas que ainda segurava e foi ter com seu chefe. Bateu duas vezes na porta. Escutou alguém exclamar um “Entre!” e obedeceu.
- Cássio! Entre aí, camarada! Só preciso de um minuto aqui… – o chefe estava invisível atrás de mais pilhas e montes de pastas, folhas e papéis.
“Por sorte o telefone não está tocando”, zombou Cássio, mentalmente.
Enquanto esperava, passou os olhos pela bela plaquinha dourada sobre a mesa e que ostentava o nome e o cargo do homem invisível:
M. Maciel
Presidente

Talvez, algum dia, ainda tivesse uma daquelas… Ou ao menos um salário daqueles…
- Então, meu Cássio? – Maciel pulou da cadeira. – Tem algo a dizer sobre meus funcionários ou meus métodos de gerência?
- Ahn – Cássio ficou confuso. O chefe não o chamara ali para simples papo, correto? – Na verdade, nenhuma reclamação, senhor. Apenas elogios.
- Isso é bom, muito bom – murmurou Maciel, esfregando as mãos e encarando sua mesa lotada.
Fez-se silêncio por alguns segundos. Cássio esperou, calado e intrigado.
- Mas o negócio é o seguinte – exclamou o chefe. – Eu andei investindo na Bolsa, como você deve saber, e consegui alguns ótimos… Você sabe. Pude reformar a ala norte da empresa e ainda consertar a antiga frota de caminhões… Coisas muito boas. Só que tivemos um sério problema com essa nova crise… e digamos que eu estou devendo tudo o que ganhei.
Cássio engoliu em seco. Pressentimento?
- Então eu preciso fazer uma coisa que eu não faria por livre e espontânea vontade. Não quero fazer isto, mas preciso. Preciso cortar despesas… E uma delas é… demitir alguns funcionários. Espero que você entenda minha posição e que algum dia possa me perdoar. Mas preciso que você procure outro emprego.
Cássio piscou várias vezes para clarear a mente. “Estou escutando direito? Estou sendo demitido? Por contenção de despesas? Primeiro, um assalto. Agora, demissão.”
Notou que Maciel chamava seu nome.
- Ahn, eu… – sua vista estava embaçada. Certamente por culpa de algumas malditas lágrimas que ousavam sair. – Eu… vou pegar minhas coisas… lá – e deu as costas ao ex-chefe.

Parece que realmente algo ruim aconteceu com minha personagem. Homens não choram com muita facilidade. Devo tentar consolá-lo?
Ainda não sei.

Cássio parou no corredor. Não queria que seus ex-colegas o vissem naquele estado. Assalto e demissão estavam ótimos para um dia; não suportaria o deboche. Recompôs-se e foi caminhando normalmente até o tal armário que o sub-chefe havia indicado. Recolheu alguns relatórios, um cheque de seu chefe destinado ao ex-funcionário (o valor era bom, mas não duraria por muito tempo), seu casaco couro – que usava no lugar do da empresa, pois era muito mais confortável – e algumas outras bugigangas nas quais não prestou atenção.
Viu uma folha de sulfite em branco e teve a idéia de deixar um pequeno bilhete de despedida para seus amigos. Silenciosamente, rabiscou algumas palavras tristes e enfiou o papel no armário de um dos colegas. Ele avisaria aos outros.
Saiu de mansinho, sem chamar por ninguém. Não queria platéia alguma.
Quando chegou à rua, olhou para o céu. As nuvens, tão fofas e brancas mais cedo, agora tinham um aguado tom de cinza. Infeliz, Cássio recusou-se a pegar outro ônibus e escolheu o luxo de uma corrida de táxi.

Sinto que ainda falta algo nesta história azarada. Um toque feminino.
Cássio, prepare-se, sua garota está a caminho.

Chegando a seu prédio, nosso herói abriu a porta e subiu as escadas arrastando os pés. Parecia-lhe que o dia não poderia piorar.
- Ei, Cássio!
O entusiasmo na doce voz de mulher o fez virar tão bruscamente que deixou cair alguns dos relatórios que, num tempo passado, ficara orgulhoso em enviar.
- Oh, Bianca! Que… surpresa! – disse ele, atrapalhando-se com suas coisas. Bianca era sua vizinha. E ele tinha uma queda por ela, pelos seus olhos azuis, seus cachos escuros e suas pernas longas.
A morena riu com a confusão dele e se adiantou para ajudá-lo. Juntou os papéis e entregou-os.
- Espere – ela fitou os olhos negros a sua frente, os tristes olhos negros, e franziu a testa. – O que houve, hein? – sua voz era mais doce ainda, o que desconcertou Cássio.
- Ahn, bom, nada que… eu… – ele enrolou a língua. Com um suspiro, tentou novamente. – Eu fui demitido. Por contenção de despesas.
O rosto de Bianca de contorceu de tristeza.
- Não, oh! Eu sinto muito, Cássio.
- Eu sei…
Permaneceram num silêncio consolador por alguns minutos.
- Cássio, ahn – tentou Bianca. – Se você precisar de alguma coisa… qualquer coisa… eu moro aqui do lado, não esquece, ok?
Cássio ergueu a cabeça e fitou os lindos olhos da moça. Ela estava sendo completamente sincera. Era por isso que ele estava, bem… apaixonado por ela. Mas nunca confessaria isso.
- Claro – ele respondeu, com um sussurro.
E quando viu, ela estava tirando suas coisas de suas mãos e forçando a entrada no apartamento dele.
- Espere… o quê? Bianca! O quê?…
- Estou ajudando você, ok? – ela o interrompeu, arrancando as chaves e abrindo a porta. – Vamos, você não parece bem para ficar sozinho. E quero aproveitar para lhe dizer uma coisa. Algo muito importante para mim.
“Ahn, como assim? Algo… importante? Será que…?” Cássio sentiu seu peito inchar enquanto imaginava o que a moça teria para lhe contar. Seguiu-a e guardou suas coisas numa estante. A vizinha parecia um pouco nervosa.
- Bom, Cássio, é o seguinte – ela torcia as mãos uma na outra. – Já faz um tempo que eu pretendia dizer isso, mas eu tinha medo que você não gostasse. Por sorte, Ricardo insistiu para eu falar, já que isso é tão importante para mim… Você sabe que eu gosto muito de você, não é?
“Meu Deus, será que ela vai dizer o que eu quero que ela diga?”
- Claro – incentivou Cássio, ansioso.
A moça suspirou.
- Então… eu estou noiva.
Um vidro se quebrou na cabeça dele. Ficou mudo.
- Ricardo e eu vamos nos casar no próximo mês e… – ela segurou um grande sorriso – eu queria que você fosse nosso padrinho. Isso é muito importante para mim, sabe? Oh, você aceita? – os olhos dela brilharam, tentadores.
Cássio mexeu a boca alguns centímetros, ainda mudo.
- Claro – sussurrou, a voz rouca.
Bianca pulou.
- Ah, obrigada! – jogou-se contra o estupefato vizinho e roubou-lhe um abraço apertado. – Eu sempre soube que você aceitaria! Obrigada! – ela se afastou. – Então, mais dia menos dia… eu trago mais notícias, padrinho.
Com uma piscadela, ela saiu, feliz.

Por essa você não esperava, não é, Cássio?

Ele congelou bem no meio da sala. Não sabia o que pensar. “Isso… não pode estar acontecendo. Ela não…” Seu dia fora o pior de toda sua vida. Um assalto, demissão e a perda da amada. Nada parecia estar a seu alcance agora.
Deixou-se sair em uma cadeira.
E ali ficou. Sem esperanças.
Uma lágrima travessa brincou em seu rosto, mas ele a ignorou. Estava completamente sozinho. Como tudo pudera mudar em tão pouco tempo?
E então, ele soube.
Furioso, cerrou os punhos.
- Você! – gritou a todo pulmão. – Vamos! Responda! Eu sei que está aí! Desgraçado!
Resfolegando, ele esperou.
- Não se faça! – ele rosnou. – Eu sei que pode me ouvir!

Com quem ele está falando?

- Imbecil, estou falando com você!

Isso… não parece… Não, eu estou sonhando.

- Sonhando que nada, babaca! Você acabou com a minha vida! Primeiro com aquela droga de coisa de “tio” lá no ônibus! Você sabia que eu perderia a cabeça com aquele moleque! Depois, a demissão! Como se os meus direitos valessem muito hoje em dia! Aquele cheque é capaz de ser sem fundo, espertalhão! E agora!… – sua garganta ficou presa com a fúria. – Bianca é noiva! Você sempre soube que eu a amava! Satisfeito agora? Minha vida está acabada!

Ora, Cássio, não é tão ruim assim… Deus, estou falando com uma personagem. Um ser inanimado… E ele está respondendo. Acho que tenho sérios problemas.

- Ser inanimado – ele desdenhou. – E, sim!, você tem muitos problemas! Comigo! Você é responsável por mim! Já que me criou… – ele interrompeu-se, lembrando de algo. – Aconteceu uma vez de a criatura engolir o criador – um sorriso maligno formou-se em seus lábios.

Você está me ameaçando, pedaço de papel?

- Estou. E pedaço de papel é a vó, imbecil!

Certo, isto é mais que suficiente. Ser insultada por uma mera personagem, não vou tolerar isso. Eu sou a autora aqui – e posso fazer as mudanças que eu quiser. E já sei como cuidar de você, Cássio…

- Rá! Me ameace, fique à vontade! Mas eu vou fazer da sua vida um inferno, igual à minha! Você vai se arrepender! – ele começou a criar um plano malévolo… – E você, narrador, cale a boca!
Mas… eu estou apenas narrando o que ela escreve. Não tenho culpa de nada.
- Sei, sei. Mas está mancomunado com ela! – e apontou para… – Chega! Estou cansado de ser uma simples personagem que pode ser jogada para qualquer lado como se não tivesse sentimentos! Algum dia eu teria Bianca para mim se você não tivesse metido sua caneta aqui, sua… sua!…

Cale-se você, Cássio. Não tem poder algum aqui.

- Como não? Você não vê? Não pode mais me controlar! Não agora! Eu estou livre! Rá! Livre dessas amarras invisíveis! – rindo, balançou os braços… – E sem narradores para me fazerem sentir que não existo de verdade! Então, se mande, otário!
Este é meu trabalho! Eu sou o narrador! Não pode me mandar embora. Não é justo!
- Ninguém nunca lhe disse que a vida é injusta? Vá, não quero mais ouvir sua voz irritante seguindo tudo o que faço ou penso. E agora que tenho finalmente um real livre arbítrio, vou mostrar para aquela autora de meia tigela com quantas frases se faz uma boa história! Ei, você! Venha cá, se tem coragem! O que foi? Está com medinho de uma simples personagem? Hein? Estou esperando, imbecil!
- Cássio? O que você…?
- Bianca? Ah, eu, bem, nada exatamente. Você… não estava escutando, certo?
- Eu não pretendia, mas acho que até as pessoas lá na frente ouviram seus gritos.
- Oh, Deus. Eu… sinto muito, eu não…
- Tudo bem, Cássio, eu entendo. É por isso que estou aqui. Trouxe uns amigos para você relaxar um pouco e esquecer seus problemas.
- Sério? Digo, não precisava…
- Ah, precisava sim. Entrem, rapazes, ele está aqui. Está mais calmo agora.
- Oh, ei, por que eles estão com essas roupas brancas? São médicos? Não!, me soltem! O que estão fazendo? Isso é uma camisa de força? Não mesmo, eu não sou louco! Me larguem agora! Mas que droga! Está vendo, cabeça oca? Está vendo como sua droga de história acabou com minha vida? Autora de meia tigela, vai se ver comigo!
- Ele realmente não está bem…
- Bem? Eu estou ótimo! A culpa é toda dela! Dela! Me soltem e levem-na! Ela!
- Cuidado com as escadas…
E foi assim que Bianca e Ricardo precisaram encontrar outro padrinho para seu casamento. Por sorte, havia muito tempo pela frente.

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Definição

Dezembro 15, 2008 at 7:14 pm (Uncategorized)

Esperança morta – ou também conhecida popularmente por falsa esperança ou esperança falsa – é, irônica mas realisticamente, aquela que nunca morre.

Esperar por algo que sabe que nunca virá e que, por mais que tente, não consegue conceber de outro jeito.

Pensar que tudo vai ficar bem quando o chefe chegar, mesmo sabendo que o tal chefe é só o big-bad-boss que quer ver sua cabeça enfeitando a entrada do salão de festas dele.

Achar que o sol irá aparecer e que a chuva irá embora num piscar de olhos, embora saiba que toda aquela montanha de papel empapado e escura era, num dia distante, o que chamava de “minha biblioteca”.

Acreditar que o líquido amarelado que você tomou é nada mais que um chá cuja formulação foi modificada para ter um sabor mais agradável que absinto, mesmo sentindo as pontadas em seu peito, as tonturas e o formigamento causados pela interrupção da entrada do ar.

Ter certeza de que o olhar de alguém sobre você pode significar algo mais, quando o seu coração assimila perfeitamente a mensagem de adeus.

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Insula e insulina

Outubro 11, 2008 at 2:03 pm (Uncategorized)

Eu estava com uma dúvida… de Português. Enviei o seguinte e-mail para o professor Cláudio Moreno – sim, o que escreve na ZH.

Caro professor Moreno:
 
Chamo-me Pietra … … e ouso dizer que sou sua maior fã de 15 anos de idade. Não perco uma coluna sua e as guardo com o maior carinho. Moro atualmente em …, …, e tenho uma dúvida.
Eu estava pesquisando por algumas palavras em latim. Bati os olhos em insula, que quer dizer ilha. Pois bem, imediatamente, lembrei-me de minhas aulas de Biologia e pensei: “Será que insula tem algo a ver com insulina?” Procurei em meu caderno e encontrei que o supracitado hormônio pancreático é produzido nas Ilhotas de Langerhans. Fez sentido para mim. Eu gostaria de saber se essa minha dúvida tem fundamento, ou não se, como respondeu-me meu professor de Português, insula está longe de insulina.
Muito obrigada desde já.
 
Pietra.

E a resposta dele foi a que segue.

Prezada Pietra, como é que teu professor (o outro…) pode não enxergar o que a tua intuição percebeu? Bastaria que ele consultasse mais seguidamente o Houaiss, onde encontraria, por exemplo, 

insulina -   hormônio secretado pelo pâncreas, com importante função no metabolismo dos carboidratos no sangue ¤ etim fr. insuline (1909) ‘hormônio pancreático’, cujo nome se prende ao lat. insùla,ae ‘ilha’ porque a substância é secretada em áreas do pâncreas chamadas ilhotas de Langherans; ver insulin(o)- e insul-

As línguas básicas da Medicina, da Biologia e, na verdade, de toda a Ciência são o Grego e o Latim, que formam uma espécie de patrimônio comum do Ocidente e permitem que os cientistas batizem suas descobertas com nomes que não carreguem conotações específicas a uma determinada nação.

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Som de escolha

Outubro 9, 2008 at 5:22 pm (Livros, Uncategorized)

                A música aguda e desafinadamente irritante ainda estava balançando sobre as casas e repetindo sem cessar as incríveis vantagens daquela escolha.

                “Por que eles fazem isso, Sissi?”, perguntou Ângela, seu pequeno nariz colado à janela.

                Aos plenos seis anos, a menina infernizava o dia da babá com questões atrás de questões. E não se duvidava que naquela noite não seria diferente. A mulher suspirou, enfadada, e largou a revista de frivolidades.

                “Por quê, Sissi?”, insistiu a garotinha, afastando-se do vidro e descendo da cadeira.

                “Ahn, bem, Ângela”, a babá coçou a cabeça, procurando alguma boa teoria. “Eles PRECISAM fazer isso, sabe? Eles têm de, ahn, fazer a gente gostar deles… Você não vai entender.”

                “Mas isso é tão chato”, enfatizou o adjetivo com pulinhos.

                “Eu sei, você quer que eu faça o quê? A cada dois anos é essa coisa toda, vai e voltam papeizinhos, tralalá e blablablá. E eles acham que nos convencem.”

                “Se eles querem que eu goste deles”, resmungou a garotinha, subindo novamente na cadeira e olhando para a rua escura, “é bom pararem com essa música boba.”

                “Tudo isso, Ângela”, filosofou a babá, pegando a revista e folheando algumas páginas, “faz parte de um processo intrincado e que muita gente que deveria entender não entende. Quando você for maior, o seu pai vai explicar cada palavra para você, e você vai saber exatamente por que essa canção tão chata na verdade é tão importante para todo mundo.”

                E pôs-se a ler uma matéria sobre tinturas capilares. A menina observou a mulher por longos minutos e, então, voltando-se mais uma vez para a janela, soltou:

                “Eles devem ter lavado seu cérebro, Sissi, porque você está falando difícil.”

 

  

 

By Moony.™

 

 

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FABRICANTES DE PONTAS DE CANETAS ESFEROGRÁFICAS ENTRAM EM GREVE POR NEGAÇÃO DE PANETONES DE NATAL

Setembro 9, 2008 at 12:09 am (Fantasiagens, Livros) (, , , , )

Os 17 funcionários do setor Pontas de Canetas Esferográficas da fábrica da Bec decidiram entrar em greve contra a negação de receberem panetones no feriado de Natal.

“É um absurdo!”, exclama um operário calvo ensandecido, tentando arrancar a caneta de minha mão. “O país pararia se não fôssemos nós! Ninguém poderia escrever nada! Uma greve vai mostrar o poder dos fabricantes de pontas de canetas esferográficas!”

Por concessão e medidas de contenção de despesas, o vice-auxiliar de gerência aconselhou ao dono da fábrica cortar a distribuição de comestíveis brindes natalinos, o que causou a visível e já citada revolta dos funcionários.

“Não há problemas realmente graves”, garante o sr. K…, dono da indústria. “Se eles persistirem com essa lenga-lenga de greve, irão passar a fazer parte do Índice de Desemprego Nacional.” 

 

Matéria escolar por mim mesma, estudante e (quem sabe) ascendente a jornalista.

 

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